Vida Extra – Fase 2

Fase 2 – Que noite terrível para se estar amaldiçoado.

Por Daniel Rossi

Já tinha acordado há algum tempo, mas a cabeça apoiada no colo de Kim Li e a sua mão suave acariciando seus cabelos o fizeram fingir que ainda estava dormindo. Por um momento todo aquele pesadelo parecia ter desaparecido, e ele sentiu-se em casa novamente, seja lá onde a sua casa fosse. Abriu finalmente os olhos. Estavam no meio de uma floresta, em um acampamento improvisado. Holgar estava assando alguma coisa, algo parecido com um enorme pernil de porco. Billy estava ajudando-o, e o cheiro delicioso o fez lembrar que aparentemente não comia há dias. Estava agora sentado ao lado de Kim Li, e ela o observava com carinho.

– Você apagou por três dias… Daí Samael apareceu e disse que devíamos tentar te levar para o próximo objetivo no mapa.

Gabriel pegou o mapa que Samael o entregara e percebeu que a cidade onde ele encontrara seus novos amigos estava apagada, como que indicando que aquela etapa de sua busca pela joia da consciência estava cumprida. O novo objetivo agora se encontrava a leste e tinha o brilho mágico característico que lhe mostrava a próxima parada em sua jornada. Enrolou o mapa e o guardou. Ficou ali parado por alguns instantes apenas contemplando o que poderia estar fazendo naquele mundo fantástico, e porque se sentia atraído por aquela mulher que mesmo parecendo ser uma completa estranha, estava conectada a ele de uma forma que não conseguia compreender. Sentada à beira da fogueira ela parecia ainda mais bonita. Porém, o sentimento que tinha é de que apesar de estar ali tão próxima, ela estava distante e de alguma forma ele tinha que voltar para ela.

– Você deve partir um pouco antes do amanhecer se pretende chegar a Motor City[bb] para a grande corrida. – Holgar sentou-se a seu lado.

– Corrida?  – Gabriel não fazia ideia do que Holgar estava falando.

– O único jeito de você conseguir um transporte para as montanhas onde a joia está é vencendo a grande corrida garoto. Samael e eu temos um conhecido lá que vai te ajudar. Ele esta esperando pelo portador da espada.

 – Espada que eu não consigo nem tirar da bainha. – Gabriel estava frustrado.

– Na hora certa ela estará lá para você garoto. Assim como ela… – meneou com a cabeça em direção a Kim Li.

– Eu estou conectado a ela, não resta dúvida. Mas eu queria lembrar…

 – Tudo tem seu tempo garoto. Samael a instruiu a não lhe dizer nada… Poderia atrapalhar a sua jornada. A joia da Consciência lhe dará as respostas que você quer. Ele disse também que daqui em diante você deveria seguir sozinho. – esta última revelação fez o estômago de Gabriel dar um nó. Seus novos amigos lhe tinham dado um arrimo, algo em que se apoiar naquele mundo estranho. Mas agora ele iria estar sozinho de novo.

Naquela noite Gabriel aproveitou para comer e descansar. Um pouco antes da alvorada (o lugar agora parecia finalmente ter noite e dia) preparou uma mochila com provisões para a viagem para Motor City[bb]. Colocou o cinto da espada na cintura e pegou o mapa para se orientar. Despediu-se de Holgar e Billy e depois de Kim Li. Ela tinha lágrimas nos olhos, e o beijou carinhosamente, passando a mão pelo seu rosto e insistindo novamente na frase que sempre lhe dizia:

– Você tem que voltar para mim entendeu? Nunca se esqueça disso.

Gabriel não disse nada. Abraçou-a novamente e partiu. Saindo da floresta onde estava, chegou ao topo de uma colina. Abriu novamente o mapa e viu que apesar de ter que chegar a Motor City, este lhe mostrava uma etapa que havia de ser completada antes. Teria que atravessar um bosque, que reluzia com o brilho mágico característico. Avançou em direção a ele. A caminhada foi curta, cerca de 40 minutos, e antes que se desse conta já havia adentrado o bosque, que parecia extremamente calmo. Calmo até demais.

Viu então no caminho a sua frente o que pareciam ser dois olhos flamejantes que flutuavam no ar. Uma voz gutural proferiu algumas palavras, que fizeram sua alma congelar.

– Que noite horrível para se ter uma maldição! – Quando as palavras acabaram de ser pronunciadas, o sol, que vinha nascendo, pareceu desaparecer. O bosque ficou escuro como que em uma noite sem luar. O ser se aproximou mais, e Gabriel conseguiu ver que se tratava de um ser encapuzado, de mais de dois metros de altura e se assemelhava muito ao que conhecemos como a aparência da Morte[bb]. Distraído pela visão horrorosa, Gabriel não percebeu os dedos brotando do chão a sua volta. Só percebeu os corpos putrefatos que brotavam do chão quando um agarrou a sua perna. Nesse momento também, sentiu a espada pulsar dentro da bainha. Ele agarrou o cabo da espada e finalmente conseguiu puxa-la e ver o brilho azul que ela emanava. Com um golpe rápido, cortou a mão do zumbi que agarrara a sua perna. Estava cercado por cerca de uma dúzia de inimigos agora. Eles avançaram em sua direção, tentando agarrá-lo.

Estava agora lutando com a espada em punho. Desferiu um golpe em diagonal, de cima para baixo que acertou dois zumbis de uma vez. Estes por sua vez se desfizeram em pó ao serem cortados pela espada. Porém, os zumbis eram em maior número, e um conseguiu o agarrar pelas costas. Lutava agora desesperadamente para se desvencilhar do zumbi, enquanto os outros se aproximavam para tentar golpea-lo e morde-lo com suas bocas fétidas. Golpeava desesperadamente com a espada, acertando um ou outro zumbi. Queria gritar por socorro, mas quem poderia ajuda-lo naquele bosque infestado de seres malignos? Quando estava quase perdendo as forças, lembrou-se de Kim Li. Neste exato momento, a espada em sua mão perdeu o brilho azul e começou a pulsar em vermelho. Com as últimas forças que possuía, agachou-se e fincou a espada no chão. Uma explosão de energia jogou os zumbis para longe. Gabriel partiu para cima deles enfurecido, golpeando violentamente e aniquilando as formas cadavéricas uma após outra.

Quando o último zumbi foi reduzido a pó pela espada de Gabriel, ele estava exausto. Atrás de si, ouviu o som de palmas lentas e compassadas. O “Anjo da Morte”, que observava a batalha a distância fitava Gabriel. A voz aterrorizante se fez ouvir novamente:

– Devo admitir, você é um adversário habilidoso… Mas não se engane. Eu estarei à espreita. Por hora, deixemos que a luz da manhã varra esta horrível noite.

O bosque iluminou-se com a luz da manhã, e o terrível fantasma desapareceu com os primeiros raios de sol por entre as folhas das árvores. Gabriel tentava recuperar o fôlego e entender o que aquilo significava. A espada em sua mão voltou a ter a aparência de uma arma normal, perdendo qualquer brilho mágico. Embainhou a espada e tentou correr o mais rápido que podia, para sair daquele lugar maldito. Alguns minutos depois chegou finalmente ao final do bosque. Tirou o mapa da mochila e percebeu que a figura que o representava estava agora apagada. Havia completado mais uma etapa em sua busca. Subiu por uma colina que era circundada por um rio estreito, onde aproveitou para lavar o rosto e recuperar as forças por um minuto.

Via ao longe agora Motor City, o lugar para onde deveria seguir agora, e que parecia uma cidade futurística, com pistas que se elevavam a centenas de metros do chão, e tinham centenas de carros circulando. Estava agora numa corrida contra o tempo, para encontrar o conhecido de Holgar e Samael, seja lá que quer que ele fosse.

Fim da Fase 2

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