Vida Extra – Fase 3

Vida Extra

Fase 3 Deixe a carnificina começar!

Por Daniel Rossi

Motor City[bb] era o lugar mais fantástico que Gabriel já havia visto em sua vida. Suas autoestradas elevadas criavam uma emaranhando de concreto e asfalto que subia a centenas de metros do chão. Os carros futuristas flutuavam a velocidades fantásticas a poucos centímetros do chão. O trânsito era insanamente incessante, e aparentemente nem mesmo para abastecer os carros paravam: simplesmente passavam por faixas especiais nas pistas onde enormes naves o recarregavam com o que pareciam ondas de energia. Em meio a todo o fascínio que a cidade teve sobre ele, lembrou-se que precisava encontrar o conhecido de Samael e Holgar, que o levaria a “grande corrida”. Porém, não fazia ideia de como iria fazer isso. Foi quando percebeu o pequeno brilho na pedra que ornamentava o punho de sua espada. Percebeu que a pedra arredondada pulsava com uma luz esverdeada em uma direção específica. Resolveu caminhar seguindo a direção que a pedra parecia lhe indicar. Quase se perdeu quando a pedra resolveu pulsar apenas no meio da joia, mas acabou percebendo que significava que ele precisava subir por um dos elevadores da cidade, para alcançar um nível diferente na enorme cidade. Gabriel caminhava pelo que parecia ser um grande pátio de comércio quando ouviu alguém se dirigir a ele:

– Então você é o homem de Samael. – Virou-se rapidamente, mas não viu ninguém, até que sentiu um leve puxão na calça, perto de joelho. O homenzinho devia ter pouco mais de um metro de altura. Era calvo, com cabelos longos e brancos nos lados da cabeça. Vestia uma roupa de mecânico, toda suja de graxa.

– Prazer, meu nome é Olaf. – Apesar da altura diminuta, o aperto de mão vigoroso do anão fez Gabriel perceber que aquela figura não tinha nada de frágil.

– Meu nome é Gabriel. Holgar disse que você é amigo dele e de Samael. Disse também que você iria me ajudar.

– Eu vou tentar garoto. Que experiência você tem pilotando estes hovercrafts?

O olhar incrédulo de Gabriel frente à pergunta de Olaf dispensava qualquer tipo de palavra. Ele nunca havia sequer visto aquelas máquinas fantásticas, quanto mais dirigido uma.

– Essa será uma experiência interessante… – Olaf o conduziu por uma movimentada passarela de pedestres, que os levariam até a oficina de Olaf. Alguns minutos depois, Gabriel já estava dentro do grande galpão onde vários hovercrafts parcialmente desmontados tinham seus motores sendo mexidos por outros anões parecidos com Olaf.

– Eu já fui um grande piloto destas belezinhas, mas isso já faz um longo tempo… Hoje me dedico a envenenar e consertar. – Olaf falava como se estivesse satisfeito consigo mesmo. – Você vai dirigir aquele ali…

Dentre todas aquelas naves fabulosas, a lata velha encostada num canto mais afastado da oficina parecia uma piada de mau gosto. Gabriel olhou incrédulo, mas Olaf o tranquilizou:

– Não se deixe levar pelas aparências garoto. Eu venci a Grande Corrida várias vezes com esta máquina. – Gabriel voltou de repente do estado de transe que o monte de sucata o havia lançado:

– Como vencer esta corrida vai me ajudar a descobrir quem eu sou e o que estou fazendo aqui?

– O vencedor ganha a viagem até a Montanha da Lucidez, onde a joia da consciência está. Lá você pode escolher entre tentar pega-lá ou trocar esta chance por um grande tesouro.

– Bem, eu não compreendo porque alguém trocaria um tesouro por uma joia apenas…

É por isso que a joia continua lá garoto. Os poucos que tentaram pegá-la não conseguiram… Existe um desafio que tem que ser vencido para que se chegue à pedra. E como somente ela te dará as respostas que você precisa…

Gabriel se acomodou no cockpit da lata velha de Olaf suspirou olhando para os controles a sua frente. Sentia saudades de Kim Li. “Você tem que voltar para mim”. A frase ecoava na sua mente a todo o momento. Estendeu a mão e segurou o volante do veículo. Foi ai que a mágicas aconteceu. Assim como sua mente havia sido inundada de lembranças quando Kim Li o beijara, parecia que uma eletricidade passou do hovercraft para seu corpo. Assim como tinha aprendido magicamente a lutar com uma espada ou a ser um artista marcial sem nunca ter feito uma simples aula, parecia estar agora conectado aquela máquina. Ligou os motores e saiu a toda para o lado de fora da oficina de Olaf, que dava para um enorme pátio onde os veículos eram testados. Sob o olhar incrédulo de Olaf, fez de tudo: de cavalos de pau a acertar alvos estrategicamente posicionados, Gabriel parecia ter intimidade total com a máquina. Depois do show, voltou para a entrada da garagem da oficina, onde Olaf o aguardava.

– Pensei que você nunca tinha dirigido um hovercraft… – Olaf estava embasbacado.

– Eu também… – Gabriel estava surpreso também, mas feliz.

– Mas não fique tão confiante. Eu percebi que você tem intimidade com o sistema de armas. Você vai precisar deles, sem dúvida.

Os dois continuaram a conversar naquele final de tarde, e Olaf explicou tudo sobre a Grande Corrida para Gabriel. Eles teriam que sair cedo na manhã seguinte rumo ao Desfiladeiro do Desespero, onde a corrida começava. Olaf providenciou um lugar para Gabriel passar a noite e na manhã seguinte partiram. O desfiladeiro parecia um enorme autódromo, com enormes arquibancadas onde milhares de pessoas se amontoavam para ver a corrida. Um narrador maluco incitava o publico entre uma ou outra canção antiga de rock and roll. Gabriel achou aquilo inusitado, mas estava mais concentrado agora em vencer a corrida. Via de relance os outros competidores, todos eles mal encarados e com cara de poucos amigos.

– Deixem a carnificina começar! – A voz do locutor maluco ecoou pelos alto falantes e fez o publico delirar. Olaf explicou alguns últimos detalhes para Gabriel e lhe desejou boa sorte. Sozinho agora no cockpit, Gabriel se lembrou de uma vez mais de Kim Li. Uma sirene, porém o fez voltar à realidade, pois a corrida iria começar. Um enorme letreiro exibiu uma contagem regressiva começando em três. E partiram.

Os hovercrafts saíram rasgando por dentro do desfiladeiro. A primeira coisa que Gabriel percebeu é que a Grande Corrida era mais sobre sobrevivência do que sobre velocidade, como Olaf o havia alertado. Estava desviando agora dos foguetes inimigos, especialmente de um hovercraft vermelho como o seu, que seguia no seu encalço. Ergueu um pequeno botão no painel e liberou uma pequena esfera da parte de trás do veiculo, que se mostrou ser o equivalente a uma mina terrestre. Pelo monitor/retrovisor, Gabriel viu o hovercraft parecido com o seu perder o controle com a pequena explosão da esfera e se espatifar contra a parede do desfiladeiro.

Está para explodir! – O narrador berrava enquanto as naves rodopiavam e se desfaziam em grandes batidas e explosões dentro do desfiladeiro. Gabriel seguia firme por entre elas, e já começava a se destacar do pelotão de trás, se juntando a outros dois hovercrafts que despontavam agora como favoritos. Estavam se aproximando do final da corrida e seguiam praticamente emparelhados. Com uma manobra rápida, Gabriel conseguiu colocar o seu veículo entre os dois primeiros colocados, que disputavam cabeça a cabeça a liderança da corrida. Já sem armamentos ou truques que poderiam usar, os dois não hesitaram em fazer um “sanduíche” com Gabriel, jogando seus veículos violentamente contra o de Gabriel.

Porém, ao perceber que os dois veículos se distanciaram para os lados para o que seria um último ataque que com certeza tiraria Gabriel a disputa, este brecou violentamente. Os dois veículos se chocaram violentamente um contra o outro, e Gabriel em um movimento rápido passou pelos dois. Estava agora sozinho na frente, e viu os dois rodopiando na pista enquanto tentavam um se livrar do outro. Acelerou e sentiu a adrenalina invadir o seu corpo. Apesar da “brecada” ter feito com que os hovercrafts que vinham atrás se aproximarem, ele finalmente cruzou a linha de chegada, vencendo a corrida. Lembrou-se imediatamente de Kim Li.

– Eu estou voltando para você.

Fim da fase 3

No próximo capitulo a conclusão de “Vida Extra”!

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