Vida Extra – O Chefão Final

Vida Extra – Chefão Final

Por Daniel Rossi 

anjo da morte

Estava dormindo sentado dentro do grande veiculo que o estava levando para a Montanha da Lucidez. Acordou assustado com o solavanco do enorme hovercraft desligando os motores. A última parada de Gabriel dentro deste fantástico mundo se desenhava agora a sua frente, pouco a frente do entreposto onde os passageiros do veiculo desceram. Carregava agora, além da espada, uma enorme chave, prêmio por ter ganhado a Grande Corrida. Olaf havia explicado exatamente o que ele deveria fazer. Seguiria por um caminho estreito, montanha acima, até chegar a um grande portão. Este, por acaso tinha seus lados fechados por aquelas mesmas cercas-vivas baixinhas do começo de sua aventura, que ele aprendera da pior forma que eram intransponíveis. Encaixou a chave na grande fechadura, que se abriu imediatamente com um estalo metálico. Estava perto agora. Percebeu que apesar de o dia não ter chegado nem na metade, as nuvens começavam a esconder o céu, e o estreito caminho ficava cada vez mais frio e escuro. Porém o que ficou gelado foi seu coração quando finalmente alcançou o topo da montanha.

Havia um descampado no topo da montanha, onde no fundo podia-se ver uma espécie de relicário onde a Joia da Consciência estava colocada. Ele aproximou- se, estupefato pela bela joia, do tamanho de uma laranja e que tinha um brilho coruscante. Quando estava pronto para finalmente tocá-la, uma voz fantasmagoricamente familiar lhe chegou aos ouvidos.

– Nunca imaginei que chegaria tão longe Gabriel.

Pairando de um canto mais afastado, o “Anjo da Morte[bb]” o observava. Espalhados pelo chão, os amigos de Gabriel estavam caídos, desacordados. A única que estava de pé era Kim Li, que estava sendo segurada pelo pescoço pelo inimigo.

– Como você já deve saber, os pretendentes a Joia da Consciência sempre têm a opção de trocá-la por um tesouro. Estava pensando qual seria o mais apropriado para você e acho que encontrei a coisa ideal.

O infame espectro abriu a mão cadavérica e deixou Kim Li correr na direção de Gabriel. Ela o abraçou e começou a chorar. Em seguida o beijou.

– Você não precisa de mais nada. Eu estou aqui para você.

O espectro esboçou um sorriso maligno. Porém, ele não durou muito. A lâmina de Gabriel entrou pelo ventre de Kim Li e saiu envolta em um sangue negro e pegajoso pelas costas da moça. Em seguida, puxou a lâmina de volta. A pretensa Kim Li soltou um guincho horroroso e se contorceu em uma névoa no ar. O mesmo aconteceu com “os amigos” caídos aos pés do fantasma.

– Já estou neste tormento a tempo demais para cair em seus truques. – Gabriel esticou o braço e pegou a joia com uma das mãos. – Pelo que entendi, seu objetivo é que eu não tenha a joia. Muito bem, venha tirá-la de mim.

O funesto fantasma avançou ferozmente, foice em punho, em direção de Gabriel. As laminas se chocaram e soltaram faíscas. Gabriel enfrentava a Morte em pessoa, que parecia incrivelmente forte e habilidosa com sua foice. Além disso, Gabriel percebeu com o canto do olho que os horrorosos zumbis que já enfrentara antes começavam a brotar do chão. Eles grunhiam e se encaminhavam para encurralar Gabriel. Porém, quando estes já estavam perigosamente perto, os verdadeiros amigos de Gabriel apareceram. Samael lançou uma bola de fogo que logo de saída destruiu três zumbis. Holgar, Billy e Kim Li enfrentavam no mano a mano e derrubavam os zumbis uns atrás dos outros. E Olaf, armado com uma enorme machado, fazia cabeças de zumbis rolarem.

Gabriel por sua vez tinha seus próprios problemas. Estava encurralado em um canto, exausto agora pela luta com o espectro. Num último movimento de esquiva, tinha conseguido se distanciar um pouco, mas a joia havia caído de sua mão, e agora estava no chão a sua frente. O Ceifador se aproximava, flutuando em sua direção.

– Você devia ter aceitado o seu tesouro garoto. Agora, não ficara com nada.

Gabriel suspirou profundamente. As coisas pareciam estar se movendo em câmera lenta agora. Via os amigos lutando formidavelmente, mas começando a serem subjugados pelo número enorme de mortos-vivos que se levantavam sem cessar do chão. Num momento parado no tempo, viu o rosto de Kim Li. Ela olhou para ele por um momento. Conseguiu ler os seus lábios:

– Você tem que ir.

Fechou os olhos. Finalmente entendeu. Seu objetivo não era a joia, e sim a consciência. Esta estava presa dentro da joia. Tinha que liberta-la para conseguir despertar daquele pesadelo surreal. Ergueu o rosto, olhou diretamente para os olhos da Morte, que ardiam como chamas do próprio inferno.

– Se eu não terei nada, você também não terá.

Empunhou a espada ao contrário, com a ponta virada para baixo. Desferiu o golpe com toda a força que ainda lhe restara, e acertou em cheio a joia que repousava a sua frente. Ela instantaneamente se partiu, ao toque da lamina mágica. Neste momento, Gabriel sentiu com se o mundo a sua volta fosse repentinamente destruído, e ele jogado em vórtice de lembranças e imagens desconexas. Um escritório cheio de computadores, um parque onde ele e Kim Li faziam um piquenique, ele adolescente, criança jogando bola com os amigos, bebê no colo de sua mãe. As imagens cessaram tão repentinamente quanto começaram, e então houve apenas o silêncio.

Epílogo

A primeira coisa que percebeu foi o cheiro. Parecia um cheiro forte de álcool ou produtos de limpeza. Eles o deixavam um pouco enjoado. Foi quando percebeu que a garganta estava fechada, porque um tubo estava colocado nela, e o ajudava a respirar. Com a consciência voltando aos poucos, os sentidos começaram a se aguçar. Sentia que estava deitado em uma cama e lençóis ásperos cobriam seu corpo até a altura do peito. Abriu levemente os olhos. A luz da sala da UTI o cegou a princípio, mas a visão foi focando lentamente. Não sentia nenhuma dor, apenas o incômodo das várias agulhas espetadas nos braços, para que ele recebesse soro e medicamentos.

Foi nesse momento que começou a se lembrar do acidente. Trabalhara até tarde da noite com a equipe de produção. Seu chefe queria que o novo game chegasse às lojas para o Natal e ele, como designer do jogo tinha tomado decisões cruciais. Estava com a cabeça tão atribulada aquela noite. Mas não era só com o trabalho. Estava para tomar uma decisão importante na vida pessoal também. Ia finalmente pedir a mão da namorada de longa data em casamento, e naquela noite, enquanto caminhava para casa, ensaiava mentalmente o que iria dizer. Estava tão compenetrado na tarefa que atravessou descuidadamente a rua em frente ao seu apartamento. Daí vinha a sua última lembrança: as duas luzes de farol, o som da buzina e o mundo girando.

Seus pensamentos foram então, interrompidos. A porta da UTI se abriu, e dela emergiram duas pessoas. À frente, um médico, já de certa idade, que lhe lembrara de certo mago que lhe havia orientado no sonho louco em que havia estado durante aquele tempo em que permanecera ali. Atrás dele, vinha Kim Li, na verdade Joana, sua futura noiva. Ela parou do lado da cama, pegou a sua mão e olhou fixamente para Gabriel. Ela chorava profusamente, e tinha um sorriso imenso no rosto. Mal conseguiria falar qualquer coisa, mas aproximou-se do ouvido do amado e sussurrou com a voz embargada:

– Você voltou para mim.

GAME OVER!

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