Vida Extra

Vida Extra

Por Daniel Rossi

Prólogo – Quem eu sou e o que estou fazendo aqui?

Estava recobrando a consciência, mas ainda não conseguia abrir os olhos. Sentia o chão embaixo de si, ele era arenoso e cheio de pedras. Apesar disso, ele não o machucava. Não sentia dor alguma, na verdade. Apenas uma urgência em abrir os olhos, que seguiam cerrados. Sua respiração era calma e lenta. Senti-se como que em um transe, do qual agora estava tentando acordar. A força nos membros começava lentamente a voltar. Apoiou-se nos braços e colocou-se de joelhos. Os olhos começaram lentamente a se abrir. No começo, conseguia apenas enxergar tonalidades de vermelho e cinza. Esfregou os olhos com as mãos, tentando tornar a visão mais nítida. Finalmente conseguiu ver, e subitamente se deu conta de que não fazia ideia de onde estava, ou mesmo de quem era.

A noite estava clara, e começou a perceber que algo estava errado quando olhou para o céu. Existiam duas luas nele. A tranquilidade o abandonou, e uma pequena ponta de desespero começou a tomar o seu lugar. Estava sozinho no meio de um deserto, com duas luas no céu. Em todas as direções que olhava, via apenas montanhas ao longe, algumas com luzes em seu topo, outras na mais completa escuridão. O chão vermelho sob os seus pés se estendia em todas as direções, e seu instinto foi o de seguir em direção à montanha com luzes, o único indício de civilização naquela loucura em que se metera. Tentava lembrar o nome, mas a cabeça estava completamente vazia. Caminhou por alguns minutos, e começou a vislumbrar alguma coisa no horizonte. Tinha a impressão que aquele estranho lugar o pregava peças, pois parecia que algumas coisas começavam a aparecer do nada, como que se tornassem tangíveis apenas quando ele se aproximava.

O que via agora ajudava a compor ainda mais aquele cenário surreal. Uma cerca viva, de aproximadamente sessenta centímetros de altura se estendia para a esquerda e para a direita até onde a visão alcançava. Exatamente a sua frente, um portão alto, com cerca de dois metros de altura estava trancado com um pesado cadeado. Abaixou a cabeça e levou a mão ao rosto. Quando as mãos desceram, percebeu ao seu lado esquerdo uma luz. Havia ali agora uma tenda, iluminada do lado de dentro por uma claridade bruxuleante. Parecia que havia uma fogueira ou algo parecido. Assustou-se, e seu primeiro instinto foi o de saltar a cerca viva e fugir dali. Porém, apesar da cerca ter praticamente a altura de suas pernas, ele não conseguiu. Parecia haver uma barreira naqueles arbustos que o impediam de atravessar para o outro lado. Não conseguia bater em nada sólido, mas simplesmente não lhe era permitido ir além. A situação era tão surreal que ele até tentou forçar o cadeado do portão, mas em vão.

Teve medo de entrar na tenda, então resolveu continuar caminhando beirando a cerca viva, na direção oposta. Caminhou por cerca de meia hora, quando começou a vislumbrar algo que fazia agora menos sentido ainda. A tenda e portão apareceram de novo, ao longe. Foi se aproximando, e a cena parecia tão idêntica a que ele havia visto há alguns minutos atrás que temeu pela sanidade. Não poderia ser a mesma tenda, mas até a disposição das pedras e dos arbustos lhe pareciam ser iguais. Resolveu então entrar naquela brincadeira maluca. Pegou algumas pedras do chão e as amontoou no chão em forma de cruz logo atrás da tenda. Em seguida, voltou rapidamente pelo caminho de onde viera. Apesar de já ter caminhado muito, não se sentia cansado. Alguns minutos depois, avistou novamente a tenda e o portão. Deu a volta na tenda e quase caiu para trás quando viu as pedras que amontoara minutos atrás, exatamente como as tinha deixado. Parecia que o lugar o estava impelindo a entrar naquela tenda, e não conseguiria prosseguir se não o fizesse.

Aproximou-se cautelosamente da entrada da tenda, receoso do que encontraria ali dentro. Sua maior surpresa foi quando, parado na entrada, percebeu que o interior era muito maior do que as dimensões pelo lado de fora podiam transparecer. A acanhada tenda por dentro parecia um salão de três vezes o tamanho exterior. As sombras dançantes que avistara do lado de fora vinham do fogo que ardia em uma fogueira posicionada no centro do salão, que iluminava precariamente o seu interior. Quando colocou os dois pés dentro da estranha sala, mais algumas tochas se acenderam como mágica, e ele pode ver que no fundo do salão havia uma pessoa de costas, vestida com um manto que lhe cobria da cabeça aos pés. A estranha figura percebeu a sua presença e se virou.

– Eu estava esperando por você Gabriel. Demorou mas você finalmente está aqui. – Era um ancião, com uma grande barba branca e olhos azuis que pareceram penetrar em sua alma. “Gabriel”. De repente tinha certeza que aquele era seu nome. Porém, continuava sem saber onde estava ou como tinha chegado até ali. E quem era aquela figura saída de filmes de terror que estava a sua frente?

– Não posso responder a todas as suas perguntas. – O ancião sorriu. – Me chamo Samael. Você está em uma terra de sonhos, meu amigo. Porém ela foi convertida em pesadelo por uma força muito maior que eu ou você. Você está aqui para enfrentá-la.

– Mas eu não sei nada sobre você e este lugar! Até agora a pouco eu sequer sabia o meu próprio nome! – Gabriel não compreendia o que estava acontecendo.

– Só posso lhe dizer que as respostas que você anseia estão no final deste caminho. – Estendeu um mapa sobre a empoeirada mesa, cheia de equipamentos que pareciam ser de um alquimista.

O mapa mostrava o que parecia ser todo o “reino dos sonhos”, com cinco pontos principais, que se iluminavam como que com um fogo mágico. Entre eles, o desenho do que pareciam estradas que interligavam estes pontos.

– Só passando por estes cinco lugares você conseguirá chegar até o que você procura. Você precisa resgatar a joia se quiser respostas e voltar para o lugar de onde você veio. – O velho levou um longo cachimbo a boca e baforou.

– Joia? – Gabriel estava ainda mais confuso.

– A Joia da Consciência é o que devolverá a vida a este lugar. E ela certamente lhe dará aquilo que você anseia também. Mas para isso, você terá que enfrentar os desafios destes cinco lugares.

Gabriel resignou-se. Teria enlouquecido? Percebeu por fim que não teria outra opção a não ser dançar conforme a música. Talvez acordasse daquele pesadelo, eventualmente. Ainda receoso, caminhou até a mesa, enrolou o mapa e colocou embaixo do braço. Samael sorriu, vendo que ele estava disposto a pelo menos tentar. Ele olhou fixamente para Gabriel.

– É muito perigoso ir sozinho. Pegue isto. – Retirou um objeto envolto em panos de uma prateleira e entregou a Gabriel. Este desembrulhou-o e ele viu que era uma espada, cujo cabo era todo esculpido. A lâmina era reluzente e ele podia ver o próprio reflexo nela. De alguma forma, sentiu-se mais seguro com a arma em mãos. – Você, de qualquer forma, terá que aceitar a missão, quando for necessário. Há uma bússola no cabo da espada. Você deve usá-la em conjunto com o mapa.

Colocou um cinto com uma bainha que Samael lhe entregou em seguida e guardou a espada. Virou-se e foi saindo da tenda. Estava confuso e nada daquilo lhe fazia o menor sentido. Um velho louco numa tenda que era maior por dentro do que por fora lhe entregara uma espada e dizia que ele era uma espécie de “escolhido” e que ele tinha uma missão. Quando estava se afastando da tenda, escutou Samael.

– Lembre-se, você deve aceitar viver a aventura, Gabriel.

Porém, quando se virou para olhar uma vez mais para o velho maluco, a tenda não estava mais lá. Assustou-se, mas a sua atenção foi logo desviada para o barulho do que parecia uma tranca se abrindo. Olhou para o portão da cerca viva e ele estava se abrindo, caindo da tranca em seguida. Aproximou-se do portão, o abriu lentamente e passou para o outro lado. Seguiu em frente, caminhando sem rumo.

Apesar de já estar caminhando pelo que lhe parecia ser horas, não conseguia ter noção do tempo, pois as duas luas no céu não pareciam se mover nada. Pela primeira vez começou a sentir cansaço. Tinha vontade de sentar no chão e chorar, esperando que aquele pesadelo terminasse de alguma forma. Foi então que ouviu a voz poderosa vir dos céus.

– AFASTEM-SE.

A voz foi acompanhada do que parecia um raio, apesar de não haver nuvens no céu. O raio caiu a poucos metros dele, abrindo um buraco no chão. Gabriel correu assustado, mas a voz voltou a ser ouvida.

– AFASTEM-SE.

Outro raio desceu do céu, desta vez tão perto que o jogou no chão. Levantou-se rapidamente e continuou a correr, desta vez cambaleando, quase desmaiando.

“Você deve aceitar viver a aventura.” – Por um motivo que ele desconhecia, as palavras de Samael ecoavam em sua cabeça. Tentava correr, mas se sentia quase desfalecendo. Mais uma vez a voz veio.

– AFASTEM-SE.

Mais uma vez o raio desceu do céu como uma flecha, quase o acertando em cheio outra vez. Este o jogou de costas no chão. Não tinha mais forças para se levantar.

“Você deve aceitar viver a aventura.”

Se houvesse um próximo raio daqueles, certamente iria atingir-lhe em cheio. A voz veio mais uma vez.

– AFASTEM-SE.

Instintivamente desembainhou a espada e a colocou numa posição que ele julgava ser de defesa. Tinha finalmente aceitado viver a aventura. O raio desceu outra vez, mais foi absorvido pela espada. Sentiu todo o poder percorrendo o seu corpo, como se a espada o canalizasse para dentro de si, ao invés de machucá-lo. Em seguida desmaiou.

Fim do Prólogo.

One Responseto “Vida Extra”

  1. cebesjr disse:

    muito bom meu camarada,
    espero a continuação…
    abraço

  2. […] Vida Extra – Prólogo: Quem sou eu e onde estou? por Daniel Rossi Narração: Alexandre “NerdMaster” Gabriel: Gabriel “P4qderm3″ Webler Samael: Harald “Androide” Stricker Voz Trovejante: Daniel Rossi  Vida Longa e Próspera […]

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