A aventura do Ratinho Michel

A aventura do Ratinho Michel

Por Daniel Rossi

 

França Ocupada, Novembro de 1943.

Já se passavam alguns minutos do horário do toque de recolher. Ele andava apressadamente, cortando caminho pelos becos. Havia perdido a noção da hora enquanto discutia os detalhes de seu livro com os amigos. Levava a primeira edição dele em um pacote de papel pardo, apertado contra o peito. Sua missão agora era escapar de seus dois maiores medos naqueles tempos obscuros: as patrulhas nazistas e a bronca da mulher, que deveria já estar impaciente em casa esperando-o para o jantar. Quando ele ouviu a ordem de parar, em um francês com forte sotaque alemão, esta segunda preocupação praticamente desapareceu de sua mente.

– Identifique-se. – O capitão alemão chefiava uma patrulha com mais dois soldados e o havia pegado no exato momento que ele emergia de um beco. A Luger P08 reluzia em sua mão, enquanto os outros dois soldados apontavam as MP-38.

– Me chamo Jean Michel Tissou, senhor. – O suor escorria-lhe pela têmpora, e tentava conter os tremores que lhe percorriam o corpo.

O capitão aproximou-se, colocou a mão por dentro do sobretudo de lã de Jean Michel e retirou de um dos seus bolsos alguns papéis, entre eles uma identificação que comprovava a sua identidade.

– O senhor sabe que deve se recolher no horário correto, não é monsieur? – Agora que o capitão estava mais próximo, conseguia ver-lhe o rosto, ele parecia o de um homem chegando a meia idade.

– Sim senhor, eu estava com alguns amigos conversando sobre o meu livro e acabei perdendo a noção do tempo. Eu peço perdão. – As palavras saíam trôpegas da boca. Nunca antes em toda a guerra tinha sentido tanto medo.

– Livro? – O capitão pareceu ter seu interesse despertado.

– Sim, senhor. Sou um escritor de contos infantis, e acabei de pegar a primeira edição de amostra de meu próximo livro.

– Ah, os franceses… Mesmo no meio de tanta morte e destruição ainda se preocupam com a arte. – O tom do Capitão era de clara ironia. Jean Michel não sabia o que responder e limitou-se a soltar um pequeno sorriso nervoso e deu de ombros. O nazista fitou-o de novo e perguntou – É ele que você carrega neste pacote?

– Sim, senhor. – Hesitou por um instante, mas em seguida viu que não havia outra opção do que deixar que o capitão nazista verificasse a autenticidade do fato. Estendeu lentamente o pacote. O nazista guardou a pistola e o tomou de sua mão. Desembrulhou o livro, rasgando o papel pardo que o envolvia.

– A aventura do Ratinho Michel. – Leu o título na capa. Folheou algumas páginas e parecia estar realmente lendo alguns parágrafos.

– O senhor tem filhos, oficial? – Tissou não sabia de onde havia arranjado coragem para a pergunta. O nazista o olhou meio que surpreso com a pergunta, mas mesmo assim respondeu.

– Um menino e uma menina… – a expressão do nazista parecia ter mudado repentinamente. A menção aos seus filhos parecia ter lhe trazido um ar de tristeza repentina. Tissou aproveitou o momento para dar uma cartada que poderia lhe valer a vida.

– Se anotar o seu endereço ai na capa do livro, posso providenciar que eles recebam um exemplar quando ele começar a ser impresso.

O nazista estava ainda mais surpreso. Ficou em silêncio por um instante, mas percebeu que os soldados que o acompanhavam começavam a ficar impacientes. Pareciam querer fuzilar logo o francês ou então liberá-lo e continuar a patrulha.

– Está bem. Apesar que eu duvido que você cumpra a promessa… – Pegou um lápis e anotou o nome do filho e da filha e o endereço. Tissou conseguia assim o que lhe parecia mais importante naquele momento: o exemplar de seu livro de volta. O capitão nazista aconselhou-o a ir direto para casa, pois alguma outra patrulha poderia lhe parar e não estar “tão interessada em literatura infantil”.

Tissou continuou o seu caminho apressadamente, sob o olhar da patrulha alemã que ficava cada vez mais ao longe. Caminhou cerca de mais três quadras. Demorou alguns minutos até que conseguisse parar de tremer e tivesse firmeza na mão para colocar a chave na porta e entrar em casa. A mulher lhe esperava aos berros, reclamando que estava preocupada e que o jantar já estava frio. Ela não fazia ideia da importância daquele livro para Tissou. E ele achava melhor assim.

Alto Comando Aliado – Alguns meses depois

O General Eisenhower acabou a xícara de café e se dirigiu para a sua mesa. Estava preocupado, pois as informações que precisava não chegavam, e isso poderia colocar a perder toda a enorme operação que vinha preparando em conjunto com os aliados há meses. Porém, naquela noite seria diferente. Um mensageiro veio andado apressado pelo corredor, com um envelope grande nas mãos. Bateu continência e entregou-o ao general, partindo em seguida.

O velho general abriu o envelope e retirou do seu interior um relatório e um livro. O livro se tratava daquela mesmo que Jean Michel Tissou carregava pelos becos franceses naquela noite meses atrás. Já o relatório era a tradução de todos os códigos que haviam vindo no livro, e que forneceriam material de inteligência crucial para que ele pudesse levar a cabo a maior operação militar da história da humanidade.

Epílogo:

Alemanha Oriental, meses após o final da guerra.

Hans e Ethel Schneider não tinham muitas alegrias desde o final da guerra. O pai havia morrido combatendo na Normandia e a mãe lutava para que eles continuassem na escola e tivessem o mínimo para sobreviver. Eles brincavam no jardim em frente a sua casa, que hoje já não era tão bonito quanto nos tempos antes da Grande Guerra. Ficaram curiosas quando o carteiro parou no pequeno portão e os chamou, entregando-lhes um pequeno pacote. Tiveram uma surpresa quando viram que era um livro, uma edição traduzida para o alemão de “A aventura do Ratinho Michel”.

3 Responsesto “A aventura do Ratinho Michel”

  1. Alessandro de Matos disse:

    Sem dúvida o melhor até agora.

  2. Bernardo Cury disse:

    Vendo o filme na minha cabeça.

  3. cebesjr disse:

    Ae Daniel,
    muito bom esse conto também… espero a continuação!

Leave a Reply

'