A Noite de Um Dia Difícil

A noite de um dia difícil

Por Daniel Rossi

Subúrbio de Nova York, julho de 2011.

Ele andava apressado pela rua. Os habitantes do tranquilo bairro até estranharam o passo apressado dele, observando-o a distância, enquanto cuidavam do gramado ou levavam o lixo para fora. Fazia calor naquele quase noite de julho, e ele já estava suado da correria que tinha sido o seu dia. Conseguira a muito custo adiantar o trabalho no escritório de advocacia onde estagiava, só para ter aquela tarde livre. Vinha planejando aquilo já há algum tempo e finalmente o grande dia havia chegado.

Havia atravessado meia cidade para pegar a preciosa encomenda que levava no bolso da jaqueta. Estava fisicamente cansado, mas a euforia tomava conta dele, e apertava ainda mais o passo. Já conseguia ver a distância a casa no final da ladeira, com o seu telhado avermelhado e a cerca viva baixinha na frente. O fôlego lhe faltou, ele parou por um minuto colocando as mãos no joelho. Um carro passou pela rua com o som alto, tocando uma velha canção. Aquilo provocou nele um turbilhão de lembranças, que culminaram com um nó na garganta. Lembrou-se do pai, e como tudo aquilo só estava sendo possível por causa dele.

Levantou o olhar e percebeu o taxi amarelo parando em frente à casa onde ele tinha que chegar, e viu a passageira descer. Ela estava ainda com a roupa do trabalho, mas não importava: parecia mais bonita do que nunca. O carro com som alto havia parado, e a música que tocava agora parecia falar com ele. Era “She Loves You[bb]“. O fôlego pareceu voltar aos pulmões como mágica, e ele continuou seu caminho, passo apressado. Cumprimentou-a com um beijo. Ela perguntou o porquê de ele ter mandado o taxi pegá-la e trazê-la até ali. Desconversou dizendo que seria melhor conversarem “lá dentro”.

Ela adorou a casa, mas ainda não entendia o que eles faziam ali. Estavam juntos já há algum tempo, mas as condições duras ainda não haviam permitido que levassem o relacionamento para um patamar “mais sério”. Ele então começou a explicar o quanto a amava e como queria ficar com ela o resto da vida. Contou sobre o presente que recebera do falecido pai, e de como havia comprado aquela casa para eles. Depois, finalmente se colocou sobre um dos joelhos e tirou a pequena caixa do bolso da jaqueta. Mesmo antes de fazer a pergunta, já via a resposta nas lágrimas que começavam a escorrer dos olhos da futura esposa.

Queens, Nova York, Novembro de 2007.

A previsão do tempo havia dito que aquela seria uma das noites mais frias do ano. Mas ela não era nem de longe tão fria quanto o seu coração estava àquela noite. Estava sozinho em casa, o filho estava na faculdade de direito que havia começado há pouco. A esposa, morta há dez anos, era a única companhia na porta retrato sobre a mesa. Sobre a mesa também havia dois envelopes, que ele havia recebido no decorrer daquela tarde e tivera o cuidado de esconder cuidadosamente para que o filho não os percebesse. O primeiro era o de seu médico. Não vinha se sentindo bem há algum tempo, mas escondera do filho. Ele já tinha preocupações demais tentando manter-se em dois empregos e a faculdade.

Abriu o envelope e tirou de dentro resultado de exames. Em seguida, pegou o telefone e ligou para o médico, que havia recebido uma cópia dos mesmos exames aquela tarde. Ele, um velho amigo do tempo que era taxista, aceitara fazer o procedimento assim. Ele queria a todo custo que o filho não desviasse a cabeça dos estudos naquele momento. O médico o atendeu, e sua voz parecia mais sombria do que o habitual. Ele se demorou, explicando tecnicalidades sobre os resultados impressos no papel, mas no final, o que realmente importava foi resumido em uma palavra. “Terminal”. Despediu-se do amigo médico, desligou o telefone, e foi até a cozinha encher um copo de uísque. Tomou-o num gole só. Encheu outro copo e voltou para a mesa, onde o segundo envelope aguardava. Seu conteúdo era a resposta de outro amigo que fizera nos tempos de taxista, um avaliador de antiguidades e obras de arte.

Abriu o envelope que continha um curto relatório datilografado e a foto que ele enviara na esperança que pudesse autenticar a validade do objeto que ele guardava com tanto carinho por todos aqueles anos. Assim como o diagnóstico do médico, o que mais lhe interessava estava no fim: um valor cheio de zeros que era em quanto haviam avaliado a sua relíquia. O peso que sentia no peito pareceu aliviar. Não tinha sido em vão, afinal de contas. Levantou-se calmamente, pegou um velho disco de vinil de capa preto e branca e meio gasta, e colocou na agulha do seu velho Garrard[bb]. Chorou ali um choro silencioso, que tal como o sermão de Padre McKenzie em “Eleanor Rigby[bb]” que começara a tocar, ninguém nunca escutaria.

Nova York, 9 de fevereiro de 1964.

Aquela sem dúvida era a “noite de um dia difícil”. Não via a hora de devolver o táxi para a garagem e ir para casa. Planejava tomar um banho e correr para a casa da menina que vinha paquerando e que finalmente tinha aceitado namorá-lo. Iriam assistir ao Ed Sullivan Show[bb], que estava imperdível naquela noite. Porém, tinha ainda uma última corrida para fazer, justamente na Broadway[bb], onde o show era transmitido. Ele percebeu a confusão já algumas quadras antes. Centenas de adolescentes se aglomeravam em frente do Teatro. Ele estava ali para pegar um executivo que pegaria um vôo para Los Angeles naquela noite, e havia combinado que o esperaria no beco ao lado do Teatro, para evitar confusão com as tietes enlouquecidas.

O executivo descrito como bem apessoado, de estatura mediana e cabelos curtos e ondulados não apareceu. Esperou por cerca de duas horas no beco, sem que absolutamente ninguém aparecesse. Apenas escutava ao fundo a gritaria e os gritos dos policiais que tentavam colocar ordem na confusão. Trancou o carro e caminhou até um telefone público na esquina, de onde ligou para a futura namorada. Explicou que tinha ficado preso por causa de um cliente, e que não sabia que horas estaria livre. Ela pareceu entender, e se despediu mandando-lhe um beijo antes de a ligação cair. Voltou caminhando nas nuvens para o carro. Parecia que tinha finalmente achado a garota certa, depois de ter se divertido tanto com “as erradas”. Foi nesse momento que a confusão começou.

O executivo que ele esperara por horas abriu uma das portas laterais do teatro e veio correndo até onde o carro estava. Pediu que ele o esperasse com o motor ligado. Voltou correndo para dentro do Teatro para voltar instantes depois, seguido por outras quatro pessoas. O executivo entrou rapidamente no banco do passageiro enquanto os outros quatros se acomodaram no banco de trás. Quando o motorista virou para cumprimentar os passageiros de trás, teve a sensação de levar um soco no estômago. Estavam ali simplesmente os quatro garotos de Liverpool[bb], responsáveis por toda aquela comoção, e de quem ele mesmo era fã de carteirinha. Ficou catatônico por alguns instantes, e despertou apenas quando o executivo apertou o seu braço e ele visualizou, por trás da cabeça dos músicos, a turba enlouquecida, que havia percebido a presença dos ídolos, vindo em direção ao carro. Pisou fundo no acelerador.

Algumas fãs mais enlouquecidas ainda os perseguiram por algumas quadras, mas ele fez um caminho que acabou as despistando. O executivo explicou que a limusine que os levariam de volta para o hotel havia quebrado, e que eles precisaram sair correndo do teatro para evitar confusões com os fãs enlouquecidos. O taxista nem ligava mais para as explicações. Ele rodeou o Plaza Hotel[bb] por alguns minutos, para ver qual seria a melhor forma de se aproximar sem despertar suspeitas e finalmente conseguiu estacionar o carro em frente a uma entrada de serviço. Quiseram que ele cobrasse a corrida, mas respondeu que tinha sido uma honra. Foi aí que o músico meio narigudo sacou um disco de dentro da pasta do executivo, assinou e passou para os outros integrantes da banda assinar. Em seguida, entregou para o taxista, que agradeceu com lágrimas nos olhos. Entraram os seis pela entrada de serviço, onde ele acabou ganhando mais um presente: outro dos músicos, o mais jovem e calado deles, insistiu que tirassem uma foto juntos. O produtor a tirou e prometeu enviar ao taxista, e enviou mesmo, alguns dias depois.

Ele precisaria dela para provar aos amigos e a futura namorada que aquilo realmente tinha acontecido. Talvez, até para provar para si mesmo que tinha acontecido “a noite de um dia difícil”.

 

Agradecimentos a Gabriel Webler pelas referências e sugestões.

 

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