A Profecia

A Profecia

Por Daniel Rossi

Gigante. Apenas uma palavra, adjetivo cunhado pelos deuses para denominá-lo entre os vis mortais subalternos e inimigos tombados aos seus pés. De figura brilhante como o reluzente adorno de ouro em forma de animal que carregava no peito, observava ao longe as colunas negras que se erigiam em direção ao céu, provenientes do vilarejo que ardia morro abaixo. Era apenas mais um espólio de guerra adquirido a preço de derramamento de sangue bárbaro. Derramamento este que lhe era deveras aprazível, pela glória da batalha, pela glória de Roma. A imponência do admirável general romano só não era sobrepujada pela inigualável vaidade. Por vezes chegava até chegava a questionar sua obediência a ser humano tão vil quanto o próprio imperador.

Sua mente devaneava se por acaso existiria na imensidão imperial, ou até mesmo além das bordas da civilização, homem ou exército que lhe fosse à altura do desafio. Da tenra aurora da juventude recordava o gládio nas mãos. Fora cunhado em bronze e violência, uma máquina de guerra imbatível. Diziam os inimigos que fora enviado das próprias chamas do inferno, pelo tratamento exemplar que aplicava a qualquer um que ousasse cruzar o seu caminho. O regozijo consigo próprio foi interrompido, porém, por um auxiliar que se aproximara para reportá-lo sobre a conquista recente.

– Generosos os deuses foram conosco neste dia meu general. Ficará satisfeito em saber que os espólios superaram qualquer conquista de nossa campanha até aqui.

– E quanto aos prisioneiros? Não me incomodaria retirar estas vestes salpicadas de sangue e me deitar com uma ou duas virgens.

– Tirando a maioria dos homens, tombados por vossa gloriosa espada, sobraram sim aprazíveis donzelas, meu senhor. Existem alguns que servirão de escravos e há também uma cota de crianças e velhos. Acreditaria o meu senhor que existem até um dentre eles que se diz poder prever o futuro?

Misericordiosos sejam os deuses por esta vil criatura, pensou o general. Como poderia ser tolo o suficiente para que tal absurdo pudesse sequer ser ventilado? Porém, depois de pensar por um segundo, acabou achando interessante a ideia de ouvir os devaneios do ancião sobre seu próximos passos sobre estas inóspitas terras. Em último caso, os delírios lhe serviriam de entretenimento nas horas que precediam sua partida em busca de novas glórias.

– Se assim o é, traga a minha presença tão ilustre figura, para que ele possa adiantar os triunfos que me estão por vir.

– Como desejar meu general.

O serviçal se foi e voltou alguns minutos depois, trazendo pelo braço o velho curandeiro bárbaro. Sua figura era trágica, trôpego pela privação do cajado que o ajudava caminhar, passaria tranquilamente como um andarilho ou mendigo. De nada mostrava semelhança com um homem de conhecimento, ainda mais com um capaz de ler as entrelinhas do tempo. Tinha dificuldade até mesmo para saber onde estava, pois era cego como um morcego na luz da manhã. Estava agora prostrado à frente do imponente general, o que reduzia ainda mais sua triste figura naquele cenário.

– Aqui está ele meu senhor. Por incrível que pareça ele é versado em nossa língua. Poderás falar diretamente a ele, sem intérprete.

– Disse meu serviçal que és capaz de predizer as coisas que vão acontecer.

O ancião levantou a cabeça e olhou diretamente para o general. Os longos cabelos e barba desgrenhados emolduravam um rosto cicatrizado pelos cortes da espada do tempo. A boca, que tinha não mais que meia dúzia de dentes amarelados se abriu e respondeu ao romano.

– Dentre os dons com os quais fui amaldiçoado, este é um deles.

O general ficou surpreso com a petulância.

– Como, ancião, consideras maldição o que talvez mais anseie os homens?

– Nenhum homem que caminha sobre a Terra deveria saber o que lhe é reservado. Eu, como exemplo, que de antemão sei que as areias findam de cair para mim sem demora. – A expressão no rosto do velho bárbaro não demonstrava medo.

– Pois use a sua maldição, velho dos infernos, e diga-me logo o que me aguarda neste canto obscuro do mundo.

– Predizer-lhe o futuro é tão fácil que nem dons seriam necessários. As legiões assolararão esta terra, e depois a próxima. Homem algum se oporá a tamanho poder, e aquele que ainda assim tentar tombará diante dos gládios romanos.

Os olhos do general brilharam em júbilo. As predições do velho confirmavam aquilo que já de antemão tinha conhecimento. Mas aquela estranha figura parecia ter-lhe enfeitiçado os sentidos, e queria realmente acreditar que tais palavras eram o reflexo do futuro visto por aqueles olhos cegos.

– Roma será gloriosa, de fato. – o velho continuou. – Crescerá forte e constantemente, sem inimigos à altura. – Fez uma pausa. – Porém, crescerá tanto que se despedaçará como um castelo de areia, levado pelas águas do mar.

– Como ousa? – O general de jubiloso estava agora indignado. Sacou a espada e apontou para a garganta do velho.

– E o senhor general, perecerá pelas mãos de um cego, como eu.

A cabeça do clarividente fez um barulho peculiar ao tocar o chão. O golpe do general decapitou-o assim que ele terminou a frase. Seu corpo sem vida tombou de lado, e jazia agora em uma poça de sangue que sujava as tapeçarias da tenda do general. O serviçal se apressou em trazer ajudantes para dar jeito na dantesca cena, e alguns instantes depois, o general já se encontrava sozinho. Apesar do avançado da hora, não conseguiu dormir. As palavras ecoavam sem cessar em sua cabeça. Seria possível que tão glorioso homem teria o fim pelas mãos de um inválido? Mas afinal o que poderia saber aquele velho louco? Sua única previsão a se concretizar seria a sua própria morte.

O ego inflado o fez esquecer-se do acontecido algumas semanas depois. O clamor da batalha e da glória abafaram os ecos da voz rouca do velho louco em sua mente. O império cresceu assim como era esperado. Anos após sua passagem por aquele vilarejo bárbaro, chegava mesmo a se questionar se aquele episódio haveria mesmo acontecido. O castelo de areia romano continuou a crescer sem limites. Porém, como toda construção que se eleva muito acima de uma base não alicerçada devidamente, começou a ruir. O exército romano aos poucos já não era mais tão temido, o chegava mesmo a ser rechaçado em algumas de suas investidas. Com efeito, passou-se lentamente a ter mais posição de defesa do que ataque, perante as inúmeras invasões bárbaras que seguidamente minavam o outrora glorioso império.

Foi em uma dessas defesas de fronteiras que o grande general tombou. Atingido na cabeça por uma flecha inimiga, foi socorrido e levado a tempo para longe do campo de batalha. O ferimento, porém, agravou-se. Seguiram-se dias de febre e delírios. O imperador enviou médicos e sacerdotes para que fizessem o possível para salvar seu precioso general. E eles assim fizeram. Algumas semanas depois, estava praticamente curado. A única sequela, por uma ironia do destino, foi a perda total de sua visão. Tentou-se de tudo, desde as mais loucas misturas e infusões feitas pelos doutores da medicina até os mais truculentos sacrifícios aos deuses realizados pelos sacerdotes. Porém nada lhe devolveu a luz aos olhos.

Quando a amargura já não lhe cabia mais no peito, foi que se lembrou da velha profecia do ancião bárbaro. Seus olhos cegos enxergaram claramente o seu destino. Morrer pelas mãos de um cego, assim como o próprio profeta. E foi através da mesma arma que deu cabo da vida do portador de seu presságio que ele pôs fim a sua existência.

 

 

 

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