Consciência Absoluta – Parte 2

Consciência Absoluta – Parte 2

Por Daniel Rossi

O detetive Mason abriu os olhos e imediatamente sentiu como se o pequeno facho de luz que atravessava as cortinas de seu escritório esfaqueasse os seus olhos. Apertou-os com uma das mão para recobrar melhor a consciência e a primeira coisa que conseguiu ver foi a garrafa de uísque barato vazia caída na mesinha de café à frente do sofá onde adormecera estatelado. Caminhou cambaleante até um aparador onde havia uma pequena máquina de café. Arrependeu-se imediatamente após apertar o botão, pois o som da pequenina máquina moendo os grãos de café pareciam moer os seus próprios miolos. Quando o barulho cessou, sorveu o café direto no próprio recipiente plástico onde a cafeteira o despejava, junto com duas aspirinas.

Ouviu então duas batidas suaves na porta de seu escritório. Praguejou em sua cabeça sobre quem poderia estar querendo lhe importunar tão cedo.  Percebeu porém, olhando para o relógio de seu celular, que já passavam das três da tarde. Arrastou-se pelo escritório até a porta e espiou pelo olho mágico e viu um homem magro de meia idade, calvo, vestido em um terno preto. Deveria ser um maldito cobrador ou outro missionário da Igreja da Consciência Absoluta. Abriu a porta abruptamente.

– Se vocês querem me oferecer a salvação de novo, acho que não é uma boa hora.

A tal igreja vivia enviando missionários tentando lhe oferecer uma cura milagrosa para sua irmã, internada havia anos em uma instituição por causa do que os médicos diagnosticaram como esquizofrenia. Mason, como ateu e “pessoa afável” que era, fazia questão de afugentá-los aos palavrões. O detalhe era que a tal cura milagrosa sempre lhe custaria uma pequena fortuna.

O esguio homem parado à porta pareceu atônito com a aparência de Mason. Esta por si só seria o suficiente para espantar qualquer crente querendo vender curas milagrosas. Mas não se abalou, pois já sabia o que esperar do renomado detetive. Se apresentou:

– Detetive Mason, eu presumo. Meu nome é George Scott, sou advogado e assistente pessoal de Willians Hatbourgh II, dono da mineradora Hatbourgh. Se não for uma boa hora eu posso retornar depois…

Mason percebeu que estava assustando o seu potencial cliente e tentou se recompor o melhor que pôde. Estava com as roupas do dia anterior e nem mesmo o pesado sobretudo de couro tinha tirado antes de desmaiar bêbado no sofá do escritório. Seu hálito emanava o cheiro de um pub de quinta categoria.

Pediu para que o distinto cavalheiro entrasse e aguardasse sentado na poltrona em frente à sua escrivaninha enquanto acendia as luzes do escritório, apesar de estarem em plena tarde de verão. O detetive não se atreveria a abrir as pesadas cortinas enquanto todo o scotch da noite passada continuasse a martelar o seu cérebro. Acendeu um cigarro e sentou-se em sua escrivaninha, à frente do alinhado advogado, que começou a falar.

– O motivo de eu estar aqui é para falar sobre o desaparecimento do filho mais novo de meu empregador, Jim. Ele deixou a mansão Hatbourgh há cinco dias atrás e até então não retornou.

– Não seria o caso de chamar a polícia? – Mason questionou.

O advogado pareceu se encabular por um segundo e então respondeu.

– Hã, digamos que Jim está envolvido em algumas atividades que poderiam ser consideradas…não apropriadas pela polícia. Estas inclusive podem estar ligadas com o seu desaparecimento. Meu patrão quer que tudo corra com a maior discrição possível. É ruim para os negócios, entende?

Mason percebeu imediatamente o que ocorria. Estava acostumado a ter que investigar escândalos envolvendo altos figurões da sociedade, que o procuravam exatamente pela sua eficiência e habilidade em driblar a imprensa.

O advogado lhe passou um relatório completo sobre o filho do figurão e os dois acordaram o valor da investigação, que Mason iniciaria imediatamente.

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