Consciência Absoluta – Parte 3

Consciência Absoluta – Parte 3

Por Daniel Rossi

Entrou na lanchonete praticamente cambaleando. Seu estômago roncava e doía. Havia gastado quase todo o pouco dinheiro que lhe havia sobrado pagando algumas dívidas e o aluguel do quarto imundo onde vivia. Ainda estava com medo de voltar as ruas para vender seu produto por causa do que havia presenciado no beco duas semanas atrás. Encostou-se no balcão da lanchonete e pediu.

– Me vê umas panquecas e um pouco de café, por favor.

A garçonete que atendia o balcão olhou desconfiada para a mulher magra e com cabelos desgrenhados. Já era velha conhecida da vizinhança, mas a freguesa andava meio sumida naquelasúltimas semanas.E não estava com certeza nos seus melhores dias. Apesar de não usar drogas há dois anos, estava faminta e com roupas um pouco chamativas demais para aquele hora da manhã, como se tivesse chegado de alguma rave. A funcionária então limpou as mãos no avental não muito asseado que usava e retrucou mal humorada:

– Você tem dinheiro para pagar a sua refeição, garota?

– Eu, eu…

Engasgou no meio da resposta. Estava acostumada a pendurar, mas aparentemente a falta de seus pagamentos regulares tinha chamado a atenção do proprietário, um velho comerciante italiano tão ou mais rabugento que sua funcionária.

– Pode trazer o que ela pediu, Margareth.

A mulher sentiu os pêlos de sua nuca se eriçarem quando ouviu a voz grossa de homem atrás de si. Virou-se rapidamente, já ensaiando uma fuga, e viu a figura do Detetive Mason. Ele lhe sorriu maliciosamente e olhou de volta para a garçonete.

– Nós vamos estar sentados ali no fundo.

O detetive indicou uma mesa mais reservada, enquanto já segurava firmemente o braço da mulher. Ela até fez menção de resistir, mas a mão firme de Mason deixou claro que seria inútil. Conduziu-a até a mesa, onde Mason iniciou a conversa.

– Você deve ser Sophia, não?

– Quem quer saber.

A resposta atravessada foi praticamente uma confirmação. Mason sorriu de canto de boca, dando a entender a interlocutora que já conhecia a sua identidade, e seria desnecessária uma tentativa de negação.

– Pode me chamar de Mason. Sabe Sophia, foi bem difícil te encontrar.

Os olhos de Sophia se arregalaram com o fato de estar sendo procurada. Eles chamaram a atenção de Mason, pois eram de um azul belíssimo, como ele não via há algum tempo. Percebeu afinal que apesar de um pouco maltratada pela vida, Sophia tinha um belo rosto, o que o fez prestar ainda mais atenção em sua resposta.

– Eu… eu estava resolvendo uns problemas… o que você quer comigo?

Mason não respondeu imediatamente, fazendo um certo suspense. Acendeu um cigarro, deu uma tragada e então finalmente esclareceu a situação.

– Primeiro, trate de se acalmar. Eu não sou da polícia. Sou um detetive particular. Estou à procura de um de seus… “clientes”.

Mason tirou uma foto de dentro do sobretudo e colocou sobre a mesa, empurrando com o dedo indicador em direção a Sophia. Ela desviou o olhar.

– Eu tenho muitos clientes… não posso lhe ajudar.

Com cara de desapontado, Mason anuiu com a cabeça como que entendia os motivos da moça, mas emendou:

– Bem, neste caso é melhor eu avisar Margareth que você pagará pelo seu próprio café da manhã.

O detetive deu de ombros e começou a recolher a foto. Sophia porém segurou a sua mão. O ronco do estômago foi mais forte que a sua fidelidade aos clientes. Pegou a foto e nem precisou olhar com muita atenção: Não havia dúvidas que era o viciado sequestrado pela van misteriosa. Neste momento a refeição chegou, e Mason aguardou pacientemente que ela comesse. Satisfeita, Sophia contou-lhe tudo o que havia acontecido naquela noite.

One Responseto “Consciência Absoluta – Parte 3”

  1. Samuel Monteiro disse:

    Manda a parte 4 aí!!! Agora que está ficando interessante…

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