Consciência Absoluta – Parte 4

Consciência Absoluta – Parte 4

Por Daniel Rossi

A noite não era o melhor horário para inspecionar o beco, mas Mason tinha pressa. Sabia que no caso de pessoas desaparecidas, qualquer minuto contava. Deixou Sophia no apartamento dela com a orientação de ficar por lá até que ele soubesse o paradeiro de Jim. Deu-lhe algum dinheiro para ela se manter por uns dias. O incluiria nas despesas da investigação. Afinal, Hatbourgh tinha bastante.

Escrutinou cuidadosamente o beco escuro e sujo. A única certeza que tinha era de que Jim fora realmente levado, conforme Sophia havia confirmado. O resto do que ela lhe relatara não acrescentava muita coisa, a não ser um pequeno detalhe que passaria despercebido a qualquer leigo, mas não a mente afiada do detetive.

Segundo Sophia, a van os havia encurralado tão abruptamente no beco que havia batido de leve em uma contêiner de lixo. Mason tateou a lateral de metal até que sua mão percebeu um pequeno amassado. Devia ter sido uma batida bem leve, praticamente um toque que provavelmente o motorista nem percebeu em sua pressa de recolher seu refém e fugir.

Acendeu a lanterna de seu celular e examinou minuciosamente o local amassado. Percebeu que havia marcas de tinta preta, cor da van misteriosa misturada a pequenas marcas de uma tinta mais clara, de um tom avermelhado. Os olhos do detetive brilharam.

Tirou uma foto em alta resolução com o celular e em seguida acessou sua agenda de contatos, até encontrar um registro identificado como “Grid”. Enviou-lhe uma mensagem de texto. Em segundos recebeu uma resposta, com um número de conta bancária e um valor. Fez a transferência, pelo celular mesmo, da quantia informada. A transação mal acabara de ser concretizada e o telefone recebeu uma chamada de um número privado.

– Detetive Mason, sempre é um prazer atendê-lo.

– Boa noite Grid. – Mason respondeu, sério.

John “Grid” Krasinsky era uma lenda do submundo. Ele sabia de toda a “inteligência” e “logística” não oficial que movia a cidade. Ele podia tanto lhe passar o contato de um assassino de aluguel como lhe dizer se por acaso a sua cabeça estava a prêmio. Tudo claro mediante o pagamento de uma boa quantia em dinheiro.

– Tenho alguns dados para você verificar. Preciso que você verifique os registros de veículos para vans, provavelmente uma Volkswagen Eurovan, com pintura original vermelha, repintadas de preto. – Mason enviou a foto das manchas de tintas.

– Ok, mais alguma informação?

– Por enquanto não.

– Certo, me dê alguns minutos. – Grid desligou.

Mason resolveu voltar para seu escritório. As informações provavelmente estariam lhe aguardando no computador quando ele chegasse lá. Ao invés de tomar um táxi, resolveu caminhar, pois o percurso não era longo e a noite estava agradável. No caminho avistou um movimento enorme em frente ao que costumava ser um antigo cinema. Logo percebeu que o lugar dava lugar agora a outro tipo de espetáculo: um culto de uma congregação da Consciência Absoluta.

A igreja tinha sido fundada por um antigo magnata que havia amargado alguns anos na prisão. Lá ele teria “encontrado Deus” e recebido a missão de fundar a Consciência Absoluta. Um homem bem vestido parou ao seu lado na calçada, olhou para o detetive e falou:

– Já é um consciente ou está pensando em entrar?

Mason olhou para o homem, um senhor de meia-idade, baixo e calvo. Ele lhe sorria entusiasmado.

– Nem um, nem outro… apenas curioso com a agitação.

– Eu era um descrente também… mas vi coisas impressionantes lá dentro.

– Sério? – Mason não fez questão nenhuma de esconder o sarcasmo.

– Veja, eu sou médico. Havia este paciente, um magnata austríaco… tumor no cérebro, inoperável. Nem preciso dizer que ele obteve os melhores tratamentos disponíveis, todos inócuos. Ele então começou a frequentar aqui e hoje ele está curado completamente. Eu duvidei, precisei ver com meus próprios olhos, então comecei a frequentar a igreja.

– Deixe eu adivinhar: viu maravilhas desde então…

– Você deveria tentar. A mensagem de Teoria Consciente é muito forte.

O homem lhe entregou um folheto e se afastou, caminhando em direção a entrada do “templo”. Além do folheto, ele deixou Mason com uma incômoda interrogação na cabeça. Enganar pobres diabos com promessas de salvação e vida eterna era uma coisa, mas agregar pessoas bem instruídas e cultas sobre um manto de misticismo e superstição era novidade para ele. Lembrou-se da irmã doente e divagou por um tempo, mas acabou retomando o pensamento de que aquilo tudo era bobagem e seguiu se caminho, em direção ao escritório.

No Responsesto “Consciência Absoluta – Parte 4”

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