Consciência Absoluta – pt. 1

Consciência Absoluta

Suas mãos tremiam mais do que o habitual. As batidas aceleradas de seu coração lhe davam a impressão que este queria arrebentar-lhe o peito. O suor escorria profusamente pelas têmporas, mas não sentia calor algum. Ao contrário, os calafrios lhe percorriam a espinha, tornando por vezes até difícil a sua locomoção. Os neons que iluminavam a noite naqueles becos escuros e imundos lhe turvavam a visão, e ele se orientava quase por instinto, pois na maioria do tempo tudo o que seus olhos conseguiam ver eram borrões coloridos. Tinha que fechá-los hora ou outra, pois uma fonte de luz mais forte lhe causava terríveis dores de cabeça.

Necessitava de uma dose.

As pessoas que passavam por ele o ignoravam sem cerimônia. Para elas, era apenas mais um viciado na “febre”, procurando um traficante que lhe fornecesse o que precisava. A nova droga sintética infestava as ruas da cidade desde o terrível terremoto de 2045. Era barata e poderosa, uma combinação que a proliferou como água entre os jovens pobres dos guetos. Daí para alcançar a alta sociedade foi um pulo. Era o caso do jovem que cambaleava agora procurando uma dose. Se os transeuntes prestassem um pouco mais de atenção nele, perceberiam que apesar de surradas, suas roupas eram boas demais para pertencerem a um reles vagabundo de rua.

Passou em frente a um templo da Igreja da Consciência Absoluta onde alguns pregadores tentaram abordá-lo. Desvencilhou-se deles e continuou apressadamente. Finalmente alcançou o beco que ele acreditava ser o certo. Caminhou apressado para dentro dele, os braços cruzados abraçando o próprio corpo como se sentisse frio, apesar da noite quente e úmida de julho. Apesar da precária iluminação, avistou a mulher que procurava encostada à porta dos fundos de um clube de música eletrônica. Reconheceu-a quase imediatamente, como se fosse um ente querido da família. Ela era morena clara, com os cabelos coloridos cortados à altura dos ombros. Deveria ter trinta e cinco anos, mas poderia ser bem menos, pois com certeza ela mesmo “experimentava” o próprio produto. Usava um vestido de couro curto e apertado, comum as jovens que frequentavam a vizinhança, o que lhe garantia facilidade em se misturar a multidão caso uma batida policial ou outros traficantes aparecessem.

Os dois não trocaram palavra alguma, ambos já sabiam o que o outro desejava. Notas amassadas foram trocadas por um pequeno frasco com três comprimidos vermelhos. A mulher observou enquanto ele tentou por alguns segundos abrir o frasco, mas as mão trêmulas de abstinência não o permitiam. Ela então tirou um comprimido solto do bolso da jaqueta que usava e colocou na boca do rapaz. Ela tocou por um instante os seus lábios, e pode sentir o quão ressecados e gélidos eles estavam. Pode ver também os olhos de fundo amarelado, sinais que o vício do rapaz já se arrastava por algum tempo e a “febre” já começara a afetar o cérebro do rapaz. Certamente não sobreviveria por muito mais tempo, apesar que curiosamente os viciados da febre raramente morriam de overdose. Eles acabavam simplesmente desaparecendo e aparecendo mortos por traficantes cobrando dívidas ou abatidos por algum policial enquanto tentavam furtar algo para trocar por uma dose.

– Por conta da casa.  – Ela sorriu para ele.

Mais calmo, o rapaz começou a se afastar para a saída do beco. A mulher o observou por alguns instantes, voltando o olhar para as notas amassadas, que agora seriam colocadas juntas a um maço bem maior, dentro de sua bolsa.

Porém sua atenção foi despertada novamente pelo som dos pneus de uma van freando violentamente, fechando a saída do beco. Dela desceram três homens vestidos de preto e usando máscaras que deixavam a mostra apenas os seus olhos. O rapaz, surpreendido pela truculência dos ocupantes do veículo nada pôde fazer quando foi golpeado na cabeça e colocado a força dentro dele.

Apavorada, a mulher entrou rapidamente pela porta dos fundos do clube, sua rota de fuga pré-estabelecida, mas não sem antes escutar na parede a meros centímetros de sua cabeça o som de uma bala ricochetear. As lágrimas escorriam de seu rosto agora, e o desespero a fez se embrenhar ainda mais rapidamente na multidão de jovens que dançavam freneticamente embalados pelo som das batidas eletrônicas. Apesar dos homens ainda tentarem alcançá-la, desapareceu em meio à fumaça de gelo seco e as luzes coloridas.

Continua…

No Responsesto “Consciência Absoluta – pt. 1”

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