Consciência Absoluta – pt. 5

Consciência Absoluta – Parte 5

Por Daniel Rossi

A luz acima do elevador se acendeu. Quando a porta se abriu, uma figura peculiar emergiu de seu interior. O homem alto, de cabelos que começavam a rarear na parte da frente da cabeça estava vestido com um longo robe de seda branca. As barras das mangas e da saia eram adornadas por uma faixa vermelha com detalhes dourados. Lembrava algo entre um papa e um imperador romano. Caminhou pela grande sala de paredes e chão metálicos até chegar à uma enorme janela de vidro. Pode observar então outro recinto de tamanho proporcional ao que estava, onde alguns homens trabalhavam em uma espécie de laboratório.

Um dos homens, que se vestia com uma roupa de isolamento, viu o homem observando. Saiu da sala e caminhou em sua direção. Parou ao seu lado e falou, aparentando um pequeno nervosismo.

– Ela está quase pronta. Tivemos que usar uma dose extra, pois o corpo dela estava resistindo.

Um silêncio constrangedor se seguiu, e o homem em roupa de laboratório ficou ainda mais tenso. Para sua alegria, após alguns segundos, seu chefe finalmente se pronunciou.

– Tire-a da máquina. Está na hora da Senhora Cartwright experimentar a consciência absoluta.

Os dois homens observaram pelo enorme vidro o laboratório, onde puderam ver ao fundo um estranho “sarcófago”, cheio de um líquido verde translúcido. Dentro dele, o corpo de Elena Cartwright boiava, o rosto ligado à um respirador.

Quarenta e cinco minutos depois, ela estava em um ambiente muito diferente. Era empurrada em sua cadeira de rodas pelo homem de vestes brancas. Estavam em um longo corredor acarpetado, ornamentado por quadros de cunho religioso. Ele levou-os à uma espécie de palco, onde entraram por um porta lateral. De lá puderam observar o enorme recinto, um antigo teatro totalmente remodelado para novos propósitos. O homem sorriu ao ver que o mesmo estava fervilhando de pessoas, e podia-se sentir um enorme sentimento de antecipação pelo começo do “show”.

O homem curvou-se em direção a mulher e sussurrou em seu ouvido:

– Lembre-se minha querida, Deus está na seu corpo hoje. Você só precisa querer com toda a vontade de sua alma, e Ele a atenderá.

A mulher lhe sorriu, ansiosa. Lágrimas correram em seu rosto, enquanto ela observou o homem entrar no palco. A ovação foi monumental, como se o homem fosse alguma espécie de astro da música ou ator de cinema. A plateia entoava o seu nome.

– Reverendo Calahan! Reverendo Calahan!

Ele acenou para a multidão em êxtase, agradecendo a calorosa recepção. Quando a plateia finalmente se aquietou, ele começou o seu discurso.

– Hoje meus irmãos, eu estou aqui para mostrar-lhes mais uma vez as maravilhas que o nosso Deus Consciente faz através de mim, seu humilde instrumento. Mas eu não vou lhes falar sobre milagres do passado. Deus está presente aqui e agora entre vocês, e ele operará um milagre diante de seus olhos!

John Calahan olhou em direção ao local onde a senhora Cartwright estava, e um dos seus assistentes empurrou a cadeira de rodas em direção ao Reverendo.

– Esta é Elena Cartwright. Quis a vida que ela sofresse um terrível acidente.

Um enorme telão posicionado ao fundo do palco parou de exibir o brasão da Igreja da Consciência Absoluta e começou a mostrar fotos do terrível acidente automobilístico que a senhora havia sofrido, junto com fotos da mulher internada em uma UTI e fazendo fisioterapia. Um murmúrio de espanto e lamentação tomou conta da audiência, chocada com o conteúdo gráfico mostrado em detalhes no telão. Duas mulheres que estavam um pouco mais próximas do palco desmaiaram.

– Ela felizmente conseguiu sobreviver, mas os seus passos cessaram. Ela nunca mais pôde andar.

A plateia se agitou, ansiosa para ver o que viria a seguir. O reverendo falava pausadamente, conduzindo o espetáculo em um tom quase hipnótico, o que aumentava a catarse coletiva que se instalara.

 – Mas essa não é a vontade de Deus! Deus quer que Elena caminhe! E hoje ela vai caminhar!

O reverendo posicionou-se em frente à mulher e tomou as suas mãos. Fechou os olhos e abaixou a cabeça, bradando em seguida.

– Elena Cartwright, pela força do nosso Deus Consciente, eu ordeno que você se levante e caminhe!

A mulher chorava copiosamente agora. Ela tentou se mexer na cadeira, mas não tinha sensação ou movimento algum abaixo da cintura. Seguidores de Calahan infiltrados entre o povo que assistia instigavam os fiéis a entoarem cantos de louvor. O reverendo então repetiu:

– Elena Cartwright, pela força do nosso Deus, eu ordeno que você se levante e caminhe!

A voz do Reverendo agora era mais forte e alta, e parecia explodir pelas caixas de som. Nesse momento, a senhora começou a sentir uma espécie de formigamento na base das costas, que passou rapidamente a percorrer todo o seu corpo, inclusive as pernas inertes há tanto tempo. Os dedos de seus pés começaram a se mover, e os músculos de suas pernas a ganhar força. Estava em um estado de êxtase mental, e sua cabeça latejava incontrolável, apesar de não sentir nenhuma dor. Ela por fim, ergueu-se da cadeira e caminhou lentamente a princípio.

A esta altura, a multidão já urrava em êxtase.

– Vejam meus irmãos! Observem como a irmã Elena alcançou a Consciência Absoluta!

Os murmúrios e cantos entoados pela plateia se tornaram urros de uma loucura coletiva. Um milagre verdadeiro, uma mulher paraplégica acabara de erguer-se da prisão de sua cadeira de rodas bem à frente deles. Rapidamente, os agentes do Reverendo começaram a abordar pessoas específicas em meio aos fiéis, entregando panfletos e recolhendo volumosas doações.

No palco, o Reverendo Calahan recebia a ovação de braços abertos, enquanto o telão atrás de si mostrava gravações de outros milagres que haviam acontecido naquele mesmo palco. Elena Cartwright caminhava livremente pelo palco agora, em uma espécie de transe, chorando copiosamente.

Foi quando um de seus assistentes discretamente se aproximou, vindo do fundo do palco. Murmurou algo para o Reverendo.

– Reverendo, nós temos um problema.

One Responseto “Consciência Absoluta – pt. 5”

  1. Bernardo Cury disse:

    Cadê a parte 6????

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