Contágio – parte 2

Por Daniel Rossi

Aquela noite foi como uma descida ao inferno para o Agente Mcnamara. Cerca de trinta minutos após o Dr. West ministrar o composto no cadáver do terrorista, este começou a ter espasmos terríveis. Começou com movimentos desesperados com a cabeça, mas rapidamente os espasmos desceram para os membros inferiores. Por fim, os espasmos pararam. O cadáver revivido do terrorista mais famoso do mundo ergueu lentamente a cabeça. Abriu os olhos, que para o total terror do agente Mcnamara não possuíam mais pupilas, apenas uma forma branca e leitosa. Pareceu tentar balbuciar alguma coisa, e em seguida soltou um guincho animal, lutando para se libertar da pesada cadeira, que se movia e deixava cair pequenas névoas de poeira e areia.

O dardo acertou o zumbi bem no meio da testa, e fez a cabeça ser golpeada violentamente para trás. Ele se agitou mais ainda, em um ataque de fúria ainda mais violento. O agente observava a tudo incrédulo. Estava em estado de choque. Aos poucos, o reanimado começou a acalmar-se, até ficar parado, com o olhar perdido em alguma coisa que só ele enxergava. O general se agachou em frente a ele e perguntou:

Qual o seu nome? – Não houve resposta. Ele insistiu. – Qual o seu nome?

Osama. – a voz era fraca, rouca e abafada, mas compreensível.

Mcnamara, ele é todo seu. – O agente não respondeu. Parecia estar em choque. O general insistiu. – Agente?!

Desculpe… – O agente parecia estar saindo de um transe. Enxugou novamente a testa e colocou os óculos. Pegou um bloco de notas e um lápis, puxou uma cadeira e sentou a uma distância segura do terrorista. Começou fazendo perguntas simples, e o cadáver respondia, às vezes com dificuldade, todas elas. Houve momentos ainda mais bizarros, como quando o cadáver vomitou um jato amarelado em direção dos interrogadores. Mas o ponto alto da noite foi quando terminadas as perguntas, o General devolveu o terrorista ao seu sono eterno com um golpe de facão, decaptando-o. O Dr. West protestou, dizendo que um simples tiro na cabeça seria suficiente, mas o General disse que o seu método era mais seguro.

Mcnamara saiu da sala cambaleando. Arrastou-se até um dos banheiros do galpão. Desabou em cima de um vaso sanitário e vomitou demoradamente. Estava em frangalhos. Nada no seu treinamento o havia preparado para um evento tão dantesco. O Dr. West havia lhe dito que a primeira vez era chocante realmente, e lhe ofereceu algumas pílulas para que se acalmasse e conseguisse descansar um pouco. O helicóptero que o levaria de volta ao porta-aviões demoraria mais três horas para partir, e ele teria tempo para dormir um pouco. Lavou o rosto, colocou as pílulas na boca, bebeu um pouco d’água e caminhou até um cômodo que possuía algumas camas de campanha. Tirou as pesadas botas e desmaiou em uma delas.

A sala de horrores estava vazia agora, e o cadáver jazia sobre uma mesa de metal, aguardando a equipe que limparia o local. No chão, a poça de sangue e pequenos pedaços de carne, resultado da fanfarronice do General Groves recebiam um pequeno visitante. Um rato, que entrara na sala por uma pequena fresta, lambia o sangue no chão e mordiscava os restos. Quando a porta se abriu, ele se assustou e correu pela mesma fresta por onde entrara. Acabou terminando no quarto com as camas de campanha, onde o Agente Mcnamara dormia pesadamente graças às pílulas do Dr. West. Assustado, ele se enfiou em uma das botas do agente, que estavam caídas ao lado da cama. De volta à sala de interrogatório, o Dr. West coordenava a limpeza, que tinha que ser minuciosa, pois segundo o Doutor, qualquer resquício seria extremamente perigoso. Os restos mortais foram colocados em um invólucro a vácuo, e depois colocado em um caixão de metal para ser jogado no mar.

O agente abriu os olhos. A cabeça girava. Era simplesmente a pior ressaca de sua vida, mesmo sem ter bebido uma gota de álcool. Sentou-se lentamente na cama e passou as mãos pelo rosto. Abaixou-se, e pegou uma de suas botas para calçar. Nesse momento sentiu a mordida. O rato, que se escondera em sua bota abocanhou-lhe próximo ao dedão, arrancando-lhe um naco de pele e carne. Retirou instintivamente o pé e jogou a bota longe. Antes que o rato pudesse correr para longe, foi acertado por um tiro certeiro do General Groves, que entrara naquele momento para chamar o agente. Um soldado veio correndo pelo corredor para ver o que tinha acontecido, mas quando viu o que acontecera, voltou ao seu posto.

Estas pragas estão por todos os cantos. Mas se você tomou todas as suas injeções, não tem com o que se preocupar.

Tenho que fazer um curativo nisto. A mordida foi profunda. – O agente estava pálido.

Não há tempo agente. O helicóptero está esperando para levá-lo de volta para o USS Carl Vinson. Você pode fazer um curativo lá.

Não vejo a hora de voltar para Washington. – Mcnamara não estava tendo a mais aprazível das experiências.

O agente despediu-se do General e se encaminhou para o helicóptero. O ferimento no pé latejava, mas ele estava feliz em estar indo embora daquele inferno. Quando chegou ao porta-aviões, fez um curativo e seguiu viagem. Tinha que voltar o mais rapidamente possível para Washington para reportar as informações aos seus superiores.

Miami, Estados Unidos, alguns dias depois.

A última escala da viagem era um voo entre Miami e Washington, que duraria cerca de 2 horas. A febre do Agente Mcnamara, quando ele entrou no avião, já era de mais de quarenta graus. Estava se mantendo em pé há dias a base de antibióticos e analgésicos. Sentou-se na poltrona do jato da Força Aérea e imediatamente uma comissária de bordo lhe ofereceu um cobertor. Um médico o acompanhava, e ministrava medicamentos em horários pré-determinados. Quando terminasse a missão, entregando seu relatório e informações aos seus superiores, se internaria no melhor hospital de Washington e ficaria bem, imaginava. Porém, as esperanças do agente acabaram cerca de meia hora após o avião levantar voo. A parada cardíaca foi repentina, e mesmo o médico que o acompanhava demorou a percebeu que o agente não estava apenas dormindo. Tentaram reanimá-lo, mas o agente já estava além de qualquer ajuda.

Mas não foi apenas o Agente Mcnamara que não chegou ao seu destino. Cerca de uma hora e meia depois de levantar voo, o jato caiu nos arredores de Washington. A torre havia perdido contato com o avião depois do que parecia ter sido um ataque desencadeado por um dos passageiros. O primeiro pensamento foi de traição. Algum traidor estaria infiltrado no avião para não permitir que as informações que o agente carregava chegassem ao seu destino? Fragmentos da informação já haviam sido transferidos por meios digitais, mas informações chaves ainda estavam apenas em poder de Mcnamara, por motivos de segurança. Ele ainda trazia documentos, mapas e plantas apreendidas durante a missão no Afeganistão.

Porém, a realidade era bem diferente. As equipes de resgate enviadas para o local do acidente nunca mais fizeram contato. As seguintes também não. Foram dilaceradas pelos “sobreviventes” do acidente, contaminados pelo ressuscitado Mcnamara. O pouso forçado não foi o suficiente para aniquilá-los, e o composto incubado no corpo do agente agiu extremamente mais rápido do que a ínfima quantidade que fora inoculada nele através da mordida do pequeno rato. O contágio havia acontecido e estava desencadeado. O mais notório terrorista da história cumpria mesmo depois de morto a missão de levar o caos ao coração da América.

4 Responsesto “Contágio – parte 2”

  1. Bernardo Cury disse:

    Apocalipse Zumbi!

  2. Will Gac disse:

    O começo da escrita, apesar de ter se saído bem, teve poucas partes repetitivas, lentas e cansativas demais para a leitura… Como por exemplo o caso do agente "paralisado" e inconformado pelo o que viu.

    "O agente não respondeu. Parecia estar em choque." e "O agente observava a tudo incrédulo. Estava em estado de choque". Deu pra entender muito bem o estado dele… Mas ficou cansativo, então, não tem jeito de mudar algo que tem pra ser. Você queria realmente deixar o cara em um estado especial, algo nunca visto! Realmente BEM em choque. Mas, como dito, repetitivo… Acho que mudança de algumas palavras, como por exemplo colocar em algum momento "O Agente, ainda *estarrecido*, congelou seu olhar no cadáver sem mover um só músculo" concertaria este mínimo errinho.

    Agora, de resto, a narração seguiu-se MUITO bem! Como no conto anterior (Parte 1), fiquei preso na leitura e me empolguei com cada surpresa que se sucedeu – algo que vale a pena colocar nessa critica é a surpresa.

    Surpresa: Afinal, de acordo com os padrões literários, cinematográficos e HQs que temos por aí de tudo que envolve Mortos-Vivos feitos por vírus, a MAIORIA nos joga pro senso comum de que o começo de uma doença como esta começa meio que "Esse cara vai morder esse cara… Ele vai morder outros caras… Que vão morder outros caras" – ou seja: Colocar a ideia do ratinho contaminando o cara que muitos considerariam o protagonista da Parte 1 e Parte 2, ficou brilhante.

    Essa foi a melhor qualidade, a Surpresa de se desprender de certos clichês e através de seu próprio estilo de escrita (algo misterioso como se fosse em primeira pessoa relatando uma memória, só que escrito em terceira pessoa, deixando o mesmo suspense e ainda mais cativante) que me levou a curtir e muito a parte 2 de seu conto. Meus parabéns! =]

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