Criadores de Lendas

Criadores de Lendas

Por Daniel Rossi

A velha estrada rural se estendia por cerca de 20 quilômetros por entre os milharais. Era toda esburacada, surrada pelos caminhões que levavam a produção agrícola para os grandes depósitos da região. Suas condições estavam ainda piores, pois naquele verão de 1977, as chuvas estavam sendo intensas. A velha caminhonete enfrentava com coragem o terreno difícil, apesar de sua disposição não ser mais a mesma de alguns anos atrás. O motorista, um fazendeiro que passara a pouco da meia idade, dirigia com pressa, e olhava constantemente para o banco do passageiro, onde estava a esposa com uma criança no colo. Já estava praticamente a meio caminho de casa, quando percebeu um carro encostado do lado direito da estrada, rente ao milharal. O motorista estava fora do carro, acenando por ajuda. Seu primeiro impulso foi de continuar e não parar, afinal de contas aquela tarde estava sendo cheia de surpresas e ele tinha urgência de chegar a sua casa, mas a esposa o persuadiu de que não seria correto deixar aquele homem na estrada sem ajuda.

Parou a caminhonete e desceu. O carro parado, que já havia visto dias melhores, soltava uma quantidade de fumaça considerável pelo capô. Definitivamente aquele carro não estava preparado para enfrentar aquela estrada. Reparou que o motorista vestia roupas simples e não parecia lhe reconhecer. Na pequena cidade, quase todo mundo se conhecia ou era parente. Hesitou por um segundo. Seria aquele estranho algum criminoso? De qualquer forma, agora era tarde demais para voltar atrás. Se fizesse isso, poderia colocar em risco a segurança da esposa e da criança na caminhonete. Resolveu que o melhor a fazer era encarar a situação como a mais natural possível.

- Parece que o seu motor ferveu filho. – Disse aproximando-se.

- É… Eu verifiquei o motor antes de sair de viagem, mas resolvi cortar caminho por aqui e acabou dando nisso… – O estranho abaixou-se e puxou uma alavanca embaixo do painel do carro, abrindo o capô. Deu a volta, apoiou-se na parte dianteira do carro e junto com o fazendeiro olharam para o motor.

- Parece que você tem uma mangueira d’água rompida aqui. Acho que tenho alguma coisa na caminhonete para fazer um remendo. Dai você consegue chegar até a cidade para fazer o reparo.

- Eu agradeceria muito senhor. – A cordialidade do estranho tranquilizou um pouco o fazendeiro, mas este ainda estava ressabiado. Tinha alguma coisa nele que o incomodava.

Foram se dirigindo para a traseira da caminhonete, onde o fazendeiro guardava um monte de tranqueiras e algumas ferramentas, que utilizava para arrumar o seu trator e a própria caminhonete. Porém, no meio do caminho um comentário fez a espinha do fazendeiro gelar.

- São sua esposa e filho na caminhonete? – Disse dirigindo um cumprimento à esposa do fazendeiro, que aguardava na cabine. Ela o retribuiu com um sorriso.

- Sim… – O fazendeiro engoliu em seco. Percebeu que o estranho observou sua esposa por alguns segundos e depois continuou caminhando ao seu lado, para ajudá-lo com a caixa de ferramentas.

- Sua senhora me fez lembrar-me de minha mãe… – O semblante do rapaz mudou e tornou-se um pouco mais sombrio. – Ela faleceu há pouco tempo… Por isso estou de mudança.

- Você está indo para onde filho?

- Gotham City[bb], senhor.

- Você tem um bocado de estrada pela frente então… – O fazendeiro estava remendando a mangueira rompida com um pedaço de borracha. – O que vai fazer por lá?

- Eu… – Hesitou por um instante. – vou tentar a vida. Venho de uma cidade pequena, bem menor que esta aqui. Tenho a esperança que em Gotham vou arrumar trabalho. Tenho alguns amigos que se deram bem por lá…

- Aquela cidade é muito perigosa, filho.  – O fazendeiro estava sério. - Você parece ser um rapaz forte. Por que não se instala aqui em Smallville[bb]? Tem muito trabalho por aqui. Já vi muitos rapazes se perderem na vida da cidade grande.

- Acho que não me daria muito bem por aqui… Essa calmaria não é para mim… – Na verdade estava morrendo de medo de Gotham City[bb], mas ao mesmo tempo deslumbrado com o glamour de uma grande cidade.

- Bem garoto, parece que está pronto. – O fazendeiro limpou as mãos numa estopa. Pegou um galão de água e completou a água no radiador do carro. – Não o aconselho a ir até Gotham deste jeito, mas com certeza te levará a uma oficina mecânica na cidade.

- Muito obrigado! – o estranho estendeu a mão para o fazendeiro. Este a limpou uma vez mais na estopa e retribuiu o cumprimento.

- Filho, com tudo isso aqui, esqueci-me de perguntar o seu nome.

- É Chill, senhor. Joe Chill[bb].

- Jonathan Kent[bb]. E aquela é minha esposa Martha. – Apontou com o dedão por cima do ombro.

- E seu filho, como se chama? – A pergunta fez com que o fazendeiro quase tivesse um enfarte. Querendo demonstrar cordialidade, tinha se esquecido de que a esposa e ele tinham acabado de encontrar a criança em circunstâncias misteriosas.

- É… É Clark… Clark Kent[bb] – Retrucou com o primeiro nome que cruzou sua cabeça. Era fã dos filmes de Clark Gable[bb].

O estanho achou aquela hesitação esquisita, mas deixou para lá. Tinha pressa em chegar a Gotham. Despediu-se do fazendeiro, entrou no carro e partiu. O fazendeiro fez o mesmo. Guardou as ferramentas e se apressou a entrar na caminhonete. O bebê devia estar com fome, pois começara a chorar. Nunca mais voltaram a se ver. E infelizmente, os alertas dados pelo velho fazendeiro acabaram se tornando realidade.

Cada um, a sua maneira, modificaria o destino da Terra.

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