Fugitivo – Parte 1

Fugitivo – Parte 1

Por Daniel Rossi

Dirigia há horas. Os olhos estavam pesados, aparentavam estar cheios de areia. O carro velho, roubado no estacionamento do presídio de onde havia fugido algumas horas atrás, começava a engasgar, sintoma do baixíssimo nível de gasolina em seu tanque. O furtara com incrível facilidade, dada a algazarra que o caminhão de gás descontrolado que batera no muro norte do presídio havia causado. A explosão fora tão forte que derrubara várias partes dos muros de segurança, e a confusão que se seguiu tamanha que vários “colegas” seus aproveitaram para fugir. Desconfiava que aquilo fora um plano para libertar um destes em específico, o filho de um notório mafioso que aguardava junto a ele a sua vez na milha verde. Não podia reclamar do lance de sorte, o primeiro que lhe havia abençoado em um longo tempo. Cruzara com vários carros de polícia e caminhões de bombeiro e resgate em seu caminho, mas estes estavam mais preocupados em acudir a aflição dos atingidos pelas “tragédia”.

Agora estava em uma estrada do oeste americano, com roupa laranja de presidiário, todo chamuscado e com um carro que consumia as últimas gotas de gasolina em seu tanque. Neste instante resolveu parar o carro e vasculhar o carro para ver se encontrava algum trocado no porta-luvas ou alguma coisa no porta-malas. O porta-luvas estava praticamente vazio, tinha apenas algumas multas vencidas e um livro barato de autoajuda. Desceu do carro e foi até o porta-malas. Neste momento pensou que talvez a sorte havia lhe sorrido novamente: havia uma pequena mala, onde certamente haveria alguma troca de roupa para que ele pudesse se livrar do chamativo uniforme alaranjado. Quando abriu a mala, sentiu-se primeiro surpreso e depois um tanto exultante. Ela continha uma batina completa de padre, um disfarce perfeito para quem estava tentando ficar o mais longe possível da aparência de um presidiário. O Padre Arnold devia estar no presídio naquele dia para dar os últimos ritos à algum condenado do corredor da morte como ele, e o carro provavelmente pertencia a ele.

Pegou um pequeno frasco de água benta que havia na mala e usou um pouco de seu conteúdo para lavar o melhor que pode seu rosto para tirar as marcas chamuscadas e bebeu o resto. Havia até mesmo uns trocados em um dos bolsos da batina, o que lhe garantiria algum combustível e algo para forrar o estômago.

– Deus o abençoe padre. – Suspirou entre dentes, esboçando até mesmo um leve sorriso.

Voltou para trás do volante e seguiu viagem por mais alguns minutos, até que avistou um pequeno posto de gasolina. Encostou o carro e abasteceu cuidadosamente o veículo com uma quantidade de gasolina que lhe permitisse ficar com alguns trocados para comprar um lanche na loja de conveniência. Foi o que fez. Após matar a fome, foi até o caixa da loja e pagou sua conta.

– Estou meio sem troco hoje padre, posso lhe dar uma raspadinha de troco?

Demorou alguns segundos para se tocar de que o atendente, um gordo de camisa florida e fedendo a suor, falava com ele. Porém num estalo, despertou.

– Hã, é claro, meu filho. – Tentou parecer o mais respeitável possível.

O atendente lhe estendeu o bilhete de loteria, que ele pegou da forma mais despretensiosa do mundo. Raspou ali mesmo, com a unha. Como tinha perdido os óculos durante a fuga e não enxergava muito bem de perto, mostrou o bilhete para o atendente. Quem sabe não ganhara mais alguns trocados. Um lampejo de plano começara a se formar em sua cabeça.

– Puta que pariu! – O atendente exclamou o palavrão e se arrependeu em seguida. – Oh padre, me desculpa, é que o senhor ganhou!

Não tão entusiasmado quanto ao atendente, o fugitivo olhou para ele com certo desdém.

– É mesmo? De quanto estamos falando? Vinte? Cinquenta dólares?

– Não padre! Você ganhou o prêmio principal! São quinhentos mil dólares!

Estacou. As palavras do atendente pareciam ecoar em sua cabeça! Quinhentos mil dólares! Ficou atônito por alguns segundos, olhando para o bilhete que o atendente lhe devolvera.

– Ninguém vai acreditar que o prêmio saiu aqui no meu posto de gasolina. Vou ligar imediatamente para o Paul do jornal para ele vir falar com o senhor padre!

O atendente virou de costas, pegou o telefone e começou a discar alguns números. O jornalista do pequeno semanário da cidade acabara de atender o telefone quando ele se virou para ver o carro do padre arrancando do lado de fora do posto de conveniência. O atendente, sem entender a reação do religioso, contou toda a história do misterioso padre que havia encontrado a sorte grande no seu pequeno estabelecimento.

Já longe dali, o velho carro se afastava rapidamente do posto, levando em seu interior o fugitivo que agora tinha lágrimas escorrendo pelo rosto, provenientes dos sentimentos de alegria e ao mesmo tempo de revolta. Tinha agora um motivo a mais para levar a cabo o plano que começara a se formar em sua cabeça. A estrada a sua frente o levava de volta para a casa que não via há anos. De volta para a filha que havia ficado para trás quando havia sido condenado, anos atrás. Quando o sangue de sua esposa fora colocado injustamente em suas mãos.

Continua…

No Responsesto “Fugitivo – Parte 1”

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