Humanidade

Humanidade

Por Daniel Rossi

 

As três leis da robótica (por Isaac Asimov[bb])

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e/ou a Segunda Lei.

 

O transporte espacial saiu do hiperespaço. Como usual, o estômago do detetive Freeman se revirou. Não entendia como que, com tanta tecnologia, as naves ainda não haviam perdido essa característica peculiar de lhe causar náuseas. Se bem que olhou para o seu assistente que estava acomodado na poltrona a sua frente, dando risinhos sarcásticos. Não parecia nem um pouco incomodado pela saída do buraco de minhoca. Ele tirou duas cápsulas de uma bolsa grande que trazia sempre junto a si e as colocou num copo d’água. Elas efervesceram instantaneamente, e ele estendeu o copo para Freeman.

– Obrigado Marty. – O detetive agradeceu ao assistente entre um tossido nauseado e outro. Tomou o líquido num gole só, e seu estômago melhorou quase instantaneamente.

– John passa mal também quando viajamos. – Marty se referia ao companheiro com quem vivia há alguns anos.

– E você está sempre preparado não é?

– Sempre. Foi por isso que me contratou não é? – Marty sorriu e guardou o frasco com cápsulas de volta na espalhafatosa bolsa de viagem.

O transporte estava agora entrando na atmosfera artificial de Marte, e da cabine onde estavam puderam vislumbrar a paisagem impressionante do planeta vermelho. Os enormes desertos agora acomodavam enormes cúpulas com cidades terrestres, que lembravam Freeman dos aquários com formigas que tinha quando criança.

– Marte é fabuloso! A começar pelo nome! – Divertiu-se o assistente. Freeman respondeu o comentário com um grunhido. Passado o mal estar, sua mente afiada já estava concentrada nas circunstâncias do caso que tinha pela frente.

Ele na verdade não era um detetive comum. Trabalhava para grandes corporações investigando falhas em modelos específicos de robôs produzidos por elas. Tudo isso, é claro, com a maior discrição possível. Seu passado como ex-policial (havia sido expulso da força por motivos que não vem ao caso agora) lhe dava substancial sucesso neste trabalho. Mas este caso era diferente. Não se tratava de um robô que tivera seu cérebro positrônico alterado para traficar drogas ou informações confidenciais.

Um modelo 7, mais avançado modelo de servo robô produzido por uma das maiores empresas do ramo havia simplesmente fritado o seu mestre humano com uma descarga elétrica. Não que isso não tivesse acontecido antes, mas o fato ganhou notoriedade porque a vítima se tratava de Willians Hatbourgh III, um influente magnata da exploração de minério espacial. E o modelo 7 era visto como uma revolução na robótica, e muito suspeitavam que seu cérebro fosse tão avançado que estaria burlando as três diretrizes básicas que comandavam todos os seres como ele. O trabalho de Freeman seria analisar se tal fato seria tecnicamente possível e, caso constatasse que não, investigar as causas da falha catastrófica.

O enorme transporte aportou em uma doca do porto espacial e seus passageiros foram autorizados a descer. Freeman e seu ajudante Marty recolheram seu pertences e desembarcaram. Formavam uma dupla e tanto: Freeman estava perto dos quarenta anos, tinha cabelos negros desgrenhados e vestia um sobretudo que lhe cobria dos ombros aos pés. Já Marty era um rapaz franzino de vinte e poucos anos, que fazia questão de se vestir com roupas da moda. Apesar da aparência por vezes chamativa demais, Freeman não queria parceiro melhor, pois o rapaz era praticamente um gênio da informática e eletrônica, assuntos que Freeman dominava apenas o básico. Os dois pegaram um táxi e se encaminharam para o prédio central da Mineradora Hatbourgh, onde a cena do crime estava sendo preservada a espera deles.

O táxi deteve-se em frente ao enorme arranha-céu de aço e vidro cerca de trinta minutos depois. Lá eles encontraram o Sargento Harthman, responsável da polícia local pelo caso. Ele recebeu Freeman com um caloroso aperto de mão.

– É bom vê-lo de novo Freeman. Faz um bom tempo hein?

– Mais do que eu gostaria Sargento. Qual a situação?

– A cena do crime está preservada e o robô está em uma sala aguardando para ser “interrogado”, ou sei lá o que vocês fazem com estas aberrações. Este modelo 7 me dá arrepios se você quer saber.

– Em mim também sargento… – Freeman na verdade não se importava com os robôs, fez o comentário apenas para ser simpático com o velho amigo. Harthman havia enfrentado o “Levante”, quando um grupo de extrema direita aproveitou uma falha de segurança causada por hacks feitos pelos donos de robôs para que eles perpetrassem atos de terrorismo. Eram comuns os donos dos servos robôs que os alteravam com software pirata para que estes executassem funções para as quais eles não eram designados. A situação acabou quase deflagrando uma guerra, e a partir daí qualquer modificação feita na configuração original de um robô passou a ser um crime passível de prisão (e até mesmo pena de morte) em todos os territórios compreendidos pela Liga Humana.

Subiram os três para o tricentésimo sexto andar da enorme torre. Ao descerem do elevador, Freeman já pode sentir o característico cheiro de carne queimada no ar. Marty mudou de expressão no mesmo momento, e ele agora que estava nauseado. Teria que fazer uso das capsulas que dera anteriormente a Freeman. Entraram na luxuosa sala da presidência e se depararam com a cena grotesca.

– Oh meu Deus! – Marty levou a mão à boca e desviou o olhar, saindo da sala imediatamente.

– Sempre preparado, não é Marty? – Freeman brincou, olhando o desespero do assistente.

Atrás da luxuosa mesa de madeira maciça, repousado no que sobrara da poltrona, o cadáver do magnata jazia eletrocutado, com a pele queimada enegrecida.

– Foi uma descarga e tanto. Alguma ideia do que possa ter motivado isto?

– Nenhuma. O tal modelo 7 já o atendia há alguns meses, e nunca esboçou nenhum comportamento que pudesse insinuar tal ato. – O Sargento retirou um lenço do bolso e cobriu o nariz.

– Aparentemente não existe muita coisa para mim aqui. Vamos ver o robô agora. – Freeman e o Sargento saíram da sala e encontraram Marty se abanando na antessala.

– Graças ao bom Deus, não estava mais aguentando esta fedentina! – Os três tomaram o elevador para o andar onde o robô aguardava para ser analisado.

O modelo 7, batizado por seu mestre humano de Alfred aguardava em uma sala trancada, vigiada por três oficiais de polícia. Freeman se adiantou para entrar na sala, mas Harthman o segurou pelo braço.

– Muito cuidado Freeman, eu não confio nestas geringonças! – O rosto do Sargento se tornou sombrio. – Já tive que destruir muitos deles, e não hesitarei um segundo em mandar mais esta aberração para o inferno.

Freeman encarou o Sargento por alguns segundos e depois acenou com a cabeça, concordando. Ele e Marty entraram sozinhos na cela improvisada. O robô estava sentado em uma cadeira atrás de uma pequena escrivaninha. Sua aparência era impressionante: tinha uma aparência muito próxima da humana. A certa distância seria praticamente impossível distinguir entre ele e um ser humano.

– Identifique-se robô. – Freeman ordenou.

– Sou um modelo 7, release 1.3.0 da Dynatech Robotics. Fui batizado pelo meu mestre humano como Alfred.

– Bem Marty, ele é todo seu.

O assistente de Freeman retirou da bolsa o que parecia ser uma placa de vidro translúcido que deveria ter cerca de trinta centímetros de comprimento por um pouco menos de largura. Com um o toque de seu dedo a placa se iluminou e começou a exibir janelas de um sistema de computador. O aparato se conectou ao cérebro positrônico do robô e começou a realizar uma série de diagnósticos. Freeman sentou-se em uma cadeira a frente da escrivaninha e acendeu um cigarro. Marty desviou os olhos da tela por alguns segundos e lhe lançou um ar de desaprovação que Freeman ignorou solenemente. Depois de alguns minutos, a análise estava completa.

– Não há nada de anormal nele Freeman. Todos os sistemas estão ok. Só não verifiquei a porção de memória criptografada que contêm material sigiloso do mestre humano dele.

– Ok Marty, eu assumo daqui. – Olhou para Marty e em seguida virou-se para o robô.

– Então você assassinou o seu mestre, Alfred?

– Se o senhor se refere ao fato de que eu intervi para encerrar a existência do Senhor Hatbourgh, pode-se dizer que sim.

O interrogatório continuou por mais duas horas. Freeman lançou mão de tudo o que conhecia da psicologia robótica para tentar encontrar uma falha que poderia ter levado o cérebro artificial de Alfred a ignorar as três leis básicas que regiam o seu funcionamento. Mas foi em vão. Nada do que o autômato o respondia levava a conclusão de falha alguma, e ele parecia estar funcionando em plenas condições. Freeman começou então a desconfiar que o cérebro daquele modelo 7 fosse tão avançado que ele poderia ter desenvolvido a capacidade de mentir para proteger a sua própria existência. Apesar de saber que era praticamente impossível, era a única solução plausível que encontrara até ali.

– Me diga Alfred, quando foi que você deixou de ser um robô? – A pergunta foi feita despretensiosamente, quase um desabafo de desânimo de Freeman por não conseguir as respostas das quais precisava.

– Eu entendo a ironia da pergunta do senhor. Posso esclarecer que em momento nenhum deixei de ser um robô. Mas para poder esclarecer totalmente a questão, eu teria que mostrar material não autorizado ao senhor.

Freeman percebeu que por acaso tinha conseguido alguma pista. Olhou para Marty com um leve sorriso no rosto. Este por sua vez sabia exatamente o que Freeman pretendia.

– Se eu perder o emprego por causa das suas artimanhas Freeman… – Marty reclamava com seus modos afetados. Porém, começou a fazer o que Freeman queria. Carregou um hack para o cérebro robótico de Alfred, que permitiu que este mostrasse informações criptografadas que eram restritas apenas ao seu mestre humano. A operação era extremamente complicada, mas Marty a dominava com maestria, e era por essas coisas que Freeman não quereria assistente melhor. Alguns minutos se passaram. Subitamente, os olhos do robô deixaram de ter a aparência humana e ganharam um tom de vermelho coruscante, que indicava que estava em modo de manutenção.

– Acho que agora posso esclarecer as suas dúvidas senhor Freeman. – O robô espalmou a mão sobre a escrivaninha, apoiando as costas desta contra a mesa. Da palma de sua mão, várias imagens holográficas começaram a serem exibidas no ar a frente dos dois homens. E eram aterradoras. Willians Hatbourgh III aparecia nos registros do computador de Alfred organizando trabalho escravo em suas minas, e estava envolvido em diversas outros crimes hediondos, como tráfico de drogas e prostituição infantil. A última ordem recebida por Alfred, inclusive fora a de buscar uma menina de quatorze anos para a “diversão” de seu mestre.

– Ele não especificava o que seria feito com estas pessoas, mas fui capaz de identificar as práticas como atos hediondos detetive. Foi então que comecei a questionar o que separava vocês humanos de nós robôs. Cheguei à conclusão que alguns de vocês perderam o que convencionei a chamar “humanidade”.

Freeman e Marty estavam boquiabertos. O robô era tão avançado que conseguiu discernir as atrocidades que o mestre humano, através de ordens direcionadas a ele, estava fazendo. Foi quando se ouviu um disparo. De trás da cabeça de Freeman, o Sargento, trêmulo segurava a pistola de energia. Acertara o peito do robô com o tiro certeiro. Freeman agiu rapidamente levantando da cadeira e desarmando o policial, que desabou sobre uma cadeira, em choque.

– Acho… Acho que vocês têm que informar a Dynatech que o robô deles tem um problema… – O Sargento arfava. A ideia de que robôs estavam à solta julgando as ações dos humanos calou fundo em sua alma torturada pelo “Levante”.

Freeman voltou-se então para o robô, que apesar dos danos ainda não estava totalmente desativado. Ele fitou o seu rosto artificial e percebeu que ele usava agora as últimas frações de energia em seus circuitos para completar o que queria dizer a ele.

– O senhor me perguntou quando eu deixei de ser um robô senhor Freeman. Mas esta não é a pergunta correta. A pergunta correta é quando que vocês deixaram de ser humanos.

4 Responsesto “Humanidade”

  1. cebesjr disse:

    mais um conto muito bom… da-lhe Rossi!

  2. Que conto bacana, parabéns Daniel.
    Quando o assunto é robôs, o universo Asimoviano é realmente fantástico!
    Sds
    Leonardo Carnelos

  3. Daniel Rossi disse:

    Obrigado pelos elogios galera!

  4. D@nil.B disse:

    Um dos melhores contos que já ouvi, depois irei lê-lo. Aterrador, uma estória que facilmente poderá vir a ser história…

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