Nenhum Homem está Acima da Lei

Por Daniel Rossi

A ante-sala do tribunal[bb] era fria. Do lado de fora, o batalhão de fotógrafos[bb] se acotovelava para conseguir uma imagem, nem que fosse através de uma fresta. O meirinho tentava organizar o caos, sem sucesso. Sentado em uma poltrona posicionada estrategicamente para lhe dar o mínimo de privacidade, o réu aguardava pacientemente a hora que o recesso do júri terminasse e ele finalmente recebesse o veredicto. Aquela situação beirava o surreal para ele. Nunca esperava estar deste lado da lei, sendo julgado e exposto. Sabia que nenhum de seus companheiros se sujeitaria aquilo. Mas esta sua postura era exatamente o que o fazia diferente.

O motivo que o levará ao banco dos réus podia beirar o ridículo, se posto em perspectiva. Mas o que mais o deixava pensativo é que aquilo o incomodava há anos. Era um incomodo que ia e voltava, e surgia em sua mente quando ele menos esperava. Um erro cometido por um jovem tentando desbravar a cidade grande, e tentando conseguir um lugar ao sol. Mesmo ele tinha passado por aquela experiência, e mesmo que por motivos completamente diferentes da maioria, sentiu-se também inseguro. Sentia-se um estrangeiro, um imigrante. E aproveitara a oportunidade que tivera, tirando vantagem de seu segredo.

O barulho do lado de fora da sala chamou sua atenção. O alvoroço tinha dado lugar à voz de um policial que mandava os jornalistas se retirarem. O júri devia ter chegado a um veredicto, não demoraria muito agora. Sentiu uma leve brisa gelada, como se a janela atrás de si tivesse sido aberta. Quando se virou, porém, ela estava fechada. Ao voltar o rosto, estremeceu por instante com uma presença ao seu lado. Seu velho amigo fazia sempre questão de fazer isto com ele. E era o único que conseguia.

– Ainda não entendo por que você está fazendo isto. – A voz era rouca e grave.

– Eu preciso dar o exemplo velho amigo. Como ela está? – Não estava com paciência para se justificar mais. Estava mais interessado em saber como a esposa estava se virando.

– Diana está com ela. São as mais novas melhores amigas.

– Eu agradeço. A vocês dois.

– E eu cobrarei. – O velho amigo não perdia a oportunidade de alfinetá-lo, mas ele sabia que debaixo das camadas grossas da superfície havia um coração justo e fraterno. Mesmo que este não aparecesse com frequência.

– Eu sei… – fechou os olhos por um instante e esboçou um leve sorriso. Quando abriu os olhos de novo, o velho amigo havia ido embora, tão sorrateiramente quanto havia chegado.

Pouco depois escutou dois toques leves na porta. O meirinho abriu a porta, o rosto com uma expressão que ele não conseguia distinguir entre admiração ou receio. Ele o informou que o júri já estava pronto e que ele deveria se dirigir de volta a corte. O corredor estava vazio agora, e tudo o que havia sobrado do amontoado de jornalistas eram papéis caídos pelo chão.

– Eu nunca fiz este tipo de bagunça. – comentou olhando para o meirinho que andava ao seu lado. Este não respondeu, limitando-se a abanar a cabeça e soltar um sorriso nervoso. Ele abriu a porta da corte e ele entrou, dirigindo-se ao local reservado ao réu. Do outro lado da sala, o promotor o fitava com uma expressão de vitória. Aquela satisfação não duraria muito, pois seu velho amigo, o mesmo que acabara de visitá-lo,  já tinha um dossiê completo das ligações dele com o crime organizado, e estava esperando, a seu pedido, que o julgamento acabasse para levá-lo a público. Pedira para ser assim, para que o resultado do julgamento não sofresse influências.

A porta atrás da bancada principal se abriu e o Juiz Marshall entrou. O plenário vazio, a seu pedido,  ecoava seus passos. Sentou-se, fez um leve aceno com a cabeça para o meirinho para que este buscasse o júri. Os doze jurados entraram e se acomodaram.

– O júri chegou a um veredicto?

– Sim senhor juiz.

– Quanto à acusação de falsidade ideológica, qual o veredicto?

– Consideramos o réu culpado.

O veredicto não  abalou o réu, na verdade ele já o esperava. O juiz Marshall deu um longo suspiro, meio que não acreditando que estava participando daquele circo. Pensou por alguns segundos e falou, dirigindo-se ao júri:

– Eu agradeço aos senhores do júri. Vocês estão dispensados. – Os jurados se levantaram e foram saindo lentamente, não sem antes aproveitarem para dar uma última olhada no rosto do réu.

– Antes de proferir a sentença, gostaria de esclarecer algumas coisas. A primeira, é que se registre que apesar da notoriedade do réu, este julgamento correu dentro de todos os trâmites legais. Segundo, que apesar desta denúncia ter partido de um membro conhecido do crime organizado desta cidade, isto não tira o mérito da causa.

Parou por um momento, fitou o promotor, que continha a euforia, com um olhar de desprezo e depois se voltou e olhou nos olhos do réu.

– Terceiro, que minha sentença não pode ser prejudicada pela história do réu, por mais relevante que ela seja. Isto posto, condeno o réu Kal-El[bb], conhecido também como Superman[bb], a seis meses de trabalhos comunitários, multa de dez mil dólares e a suspensão dos direitos de exercer a profissão de jornalista até que os fatos sejam julgados pelo Comitê responsável.

O som do martelo ecoou no salão vazio. O homem mais poderoso da Terra pagaria o preço pelo talvez único deslize que cometera na vida toda. Ter entrevistado a si mesmo para conseguir um trabalho no Planeta Diário[bb].

3 Responsesto “Nenhum Homem está Acima da Lei”

  1. Xiko do Couto disse:

    Meus cumprimentos ao homem que escreveu o "melhor conto do Azulão de todos os tempos"!

  2. Rodrigo Toledo disse:

    Sensacional!!

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