O Artista

O Artista

Por Daniel Rossi

 Distrito de Meidling, Viena.

Uma agradável noite de outono de 1909.


O albergue para mendigos não era o lugar mais agradável do mundo, mas dava guarida para os desafortunados que vagavam pelas ruas da capital austríaca. Alguns dele eram recorrentes no lugar, e não raramente recebiam alcunhas dos companheiros de infortúnio. Paul Lebowicz estava ali à procura de um deles em particular, conhecido pelos companheiros de rua como “Tio Kruger” (em referência ao um político histórico). Lebowicz custava a acreditar que aquele lugar poderia inspirar qualquer um a ter pensamentos políticos, mas isso não lhe importava muito, na verdade. Tinha um objetivo ali. Aproximou-se de um funcionário que tentava em vão manter o assoalho limpo com uma vassoura que provavelmente era mais velha do que o prédio em si. O cumprimentou com um aceno de cabeça e perguntou.

– Estou procurando um rapaz, conhecido pelos “colegas” aqui como Tio Kruger.

O funcionário parecia mal-humorado, e mal levantou os olhos para respondê-lo:

– É aquele vagabundo deitado ali, com o livro. – Indicou uma das camas do albergue com a cabeça. Lebowicz agradeceu e se virou, olhando discretamente o jovem deitado na cama, lendo furiosamente um livro sobre pangermanismo[bb]. Neste momento, começou a ter sentimentos conflitantes. Sentia um estranho deslumbramento por finalmente ter encontrado quem tanto procurava, mas ao mesmo tempo odiou a si mesmo por estar ali. Mas tinha uma missão, atribuída por ele mesmo, e nada o impediria de levá-la a cabo. Aproximou-se da cama.

– Você é o que chamam de “Tio Kruger”? – o rapaz tirou o livro da frente do rosto e fitou com certa desconfiança. Era sozinho no mundo, e só os que o conheciam por este nome eram moradores de rua e boêmios, não alguém bem vestido como o homem de pé ao lado de sua cama.

– Esse não é o meu nome, mas sou conhecido assim.

– Pode acreditar, eu sei o seu nome. – Lebowicz respondeu com certa rispidez, mas percebeu que se quisesse conseguir o que queria, teria que tratar o rapaz mais amavelmente. – Você é um artista não é?

– Um fracassado, o senhor que dizer. A academia de Viena já me enxotou duas vezes. Acho que não compreenderam a minha arte.

Lebowicz engoliu em seco. Por certo você fará muito atos que seriam incompreensíveis, pensou em seu âmago. Mas tentou o seu melhor para não transparecer o que sentia naquele momento insólito. Retirou do bolso do casaco uma pequena gravura comprada de um mercador e mostrou-a ao rapaz.

– Você pintou isto?

– Sim senhor. Tem sido a minha fonte de renda nos últimos tempos. Com sorte logo poderei alugar um lugar para morar na Rua Meldemann e sair deste pardieiro.

– Talvez você possa sair daqui mais rápido do que você pensa. – Lebowicz mentiu com um sorriso no rosto. – Eu tenho uma empresa, e vi muito potencial nas suas pinturas. O que achas de pintar mais algumas para mim? Claro, em troca de um bom dinheiro.

O rapaz pareceu atônito a princípio. Era desconfiado como um gato, mas parecia que uma oportunidade de largar a vida miserável que vinha tendo havia batido a sua porta.

– Eu não tenho material. Gastei o último dinheiro que tinha para comprar comida e algumas roupas… Não tenho como produzir nada.

– Eu fornecerei tudo o que você precisa. – os olhos de Lebowicz brilharam.  Tirou um pequeno cartão do bolso, onde anotou a caneta um endereço e o entregou ao rapaz. – Este é o endereço de onde estou hospedado, apareças lá amanhã para um teste. Fornecerei-te telas e tintas, e pintarás  uma paisagem para mim.

Lebowicz entregou o cartão ao jovem e fez questão de certificar-se que ele conhecia o lugar. Em seguida foi embora. O jovem pintor ficou olhando o cartão por alguns minutos, ressabiado. Concluiu, no entanto, que não tinha nada a perder. Guardou-o cuidadosamente no meio do livro que estava lendo e dormiu.

Na manhã do dia seguinte, o rapaz levantou-se, colocou a melhor roupa que tinha e se dirigiu para Hofburg, o bairro mais elegante de Viena, onde o cavalheiro misterioso da noite anterior estava hospedado no Krantz-Ambassador[bb]. Conversou com um recepcionista e descobriu que já estava sendo esperado e que havia instruções para que um funcionário o acompanhasse até o quarto de Lebowicz. Ele abriu a porta e o recebeu calorosamente. No entanto, o rapaz ficou um pouco desconfiado ao ver de relance sobre uma escrivaninha algumas geringonças engraçadas, uma inclusive que lhe lembrava uma máquina de escrever, porém diferente de qualquer uma em que já tivera colocado os olhos. Mas qualquer sentimento de desconfiança lhe foi tirado quando viu, encostados em uma parede, algumas telas e material de pintura em abundância. Lebowicz insistiu para que ele começasse imediatamente. Posicionou a tela em um cavalete próximo a uma janela e pôs-se a pintar a paisagem.

Pouco mais de duas horas haviam se passado, e a paisagem já tomava formas quase definitivas na tela. Era tosca e praticamente de talento quase inexistente, como Lebowicz observava a distância. Ele por sua vez estava agitado, caminhando constantemente pelo quarto, em silêncio, como se tivesse que tomar uma decisão importante. O rapaz nem percebia a sua presença, entretido com as tintas e pincéis. Mais alguns minutos mais tarde, a pintura estava pronta. Lebowicz mentiu que a adorara, destilando elogios que inflavam o ego do rapaz.

– Uma obra como esta deve ser assinada pelo seu criador! – fingia empolgação.

– É que geralmente não assino minhas obras… Os mercadores preferem assim.

– Mas eu faço questão!

O jovem então pegou um pincel e começou a colocar seu nome em um canto da pintura. Quando acabou, percebeu de relance, em um reflexo do vidro da janela por onde olhava a paisagem, a arma na mão de Lebowicz. Virou-se rapidamente, mas antes que pudesse expressar qualquer reação, levou um golpe na cabeça que o fez cair desmaiado. Lebowicz engatilhou a arma e a apontou em direção à cabeça do rapaz.

– Eu gostaria de poder dizer que sinto muito…

Quando o dedo já havia pressionado o gatilho quase até o limite que o dispararia, Lebowicz escutou a maquina sobre a escrivaninha emitir um som agudo e uma luz forte veio de trás de si. Em seguida, ouviu uma voz familiar.

– Por favor, Paul, não faça isso. – Lebowicz hesitou e diminuiu a pressão no gatilho. Virou e viu Ana, sua esposa.

– Você não deveria estar aqui. – Uma lágrima começou a escorrer dos seus olhos. – Você sabe quem ele é? Sabe o que ele vai fazer?

– Eu sei querido… Mas não foi para isso que nós criamos a máquina. Nós a queríamos para vislumbrar as maravilhas que estão por vir, não para apagar os erros do passado.

Lebowicz deu as costas à mulher e voltou a colocar pressão no gatilho. As lágrimas corriam profusamente por seu rosto agora, e ele ofegava com a tensão. A mão tremia com o peso da arma. A esposa desesperada tentou uma última cartada.

– Por favor, querido, você não é assassino! Não se iguale a ele!

O homem engoliu em seco. Diminuiu a pressão no gatilho e desarmou a pistola. A esposa o fizera relembrar quem realmente era. Era um cientista, não um assassino a sangue frio. Virou-se e correu abraçar a esposa. Ela o beijou com ternura.

– Por favor, vamos para casa. – ela pediu.

Acenou com a cabeça, afirmativamente. Não conseguia falar, e as lágrimas ainda escorriam pelo rosto. Aproximaram-se, abraçados, da parafernália que estava posicionada sobre a escrivaninha, onde o cientista apertou algumas teclas. O jovem no chão começara a recobrar a consciência e só conseguiu ver dois vultos sendo envolvidos para uma luz intensa e desaparecendo no ar em seguida. Apavorado, saiu correndo do quarto, prometendo a si mesmo que esqueceria aquela história e nunca a contaria a ninguém. A pintura ficaria ali abandonada. Em seu canto inferior esquerdo, podia-se ler a assinatura do autor: Adolf Hitler.

Nota do autor: Os fatos e lugares mostrados neste conto (excluindo, óbvio, os viajantes do tempo) realmente existiram, sendo que o hotel citado, por exemplo, existe até hoje. Uma pequena pesquisa na internet sobre Adolf Hitler proverá muito material histórico interessante, inclusive sobre o seu amor pelas artes plásticas.

One Responseto “O Artista”

  1. Bernardo Cury disse:

    Impressionante!

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