O Fugitivo – Capítulo Final

O Fugitivo – Parte 13

Por Daniel Rossi

 

Os corredores do pequeno hospital estavam vazios. Funcionários e os poucos pacientes estavam desacordados, colocados em um sono profundo depois que a influência dos homens do Senador havia sido quebrada pela intervenção de McGuiness. A chuva de granizo havia danificado as instalações elétricas, e apenas algumas luzes de emergência iluminavam o seu caminho pelas trevas. Sabia que o horizonte já começava a adquirir uma tonalidade âmbar, e que brevemente o nascer do sol ocorreria, o que poderia atrapalhar os seus planos. Apertou o passo. Sem resistência, encontrou rapidamente o quarto onde John C. Harper estava. Este estava também desacordado, influenciado pelos acontecimentos de alguns minutos atrás e estava acompanhado apenas por uma enfermeira desmaiada ao lado da porta. Ele se aproximou da cama e, cuidadosamente, começou a retirar o soro e os aparelhos de monitoramento de Harper, para poder levá-lo até o carro que, se Jones tivesse tido sorte, o esperava no beco atrás do hospital.

Como estava alheio a tudo enquanto preparava o paciente o melhor possível para o delicado transporte que teria que fazer, McGuiness não percebeu a enfermeira atrás de si começar a se mover lentamente, tal qual um animal selvagem que espreita a sua presa. Era a mesma enfermeira que estivera no quarto de Richardson momentos antes de sua morte. Sorrateiramente, ela se aproximou de McGuiness, que seguia compenetrado liberando Harper dos aparelhos hospitalares. Antes que ele pudesse ter qualquer reação, a enfermeira, olhos vermelhos como as próprias chamas do inferno, passou um fio prateado amarrado a duas pequenas manoplas pelo pescoço dele, puxando para trás com uma força descomunal. Num reflexo, McGuiness conseguiu colocar alguns dedos da mão direita entre o fio e seu pescoço, mas mesmo assim ele começou a sufocar. A mulher parecia ter uma força similar a dele, apesar dos traços delicados. Os dois rodopiaram pelo quarto em frenesi, esbarrando nos móveis e derrubando ao chão o que haviam sobre eles.

McGuiness começou a sentir o fio de prata lentamente começar a cortar a pele dos dedos, e ele lutava desesperadamente para se livrar da mulher que agora já estava montada em suas costas, gritando histericamente.

– Morra desgraçado! Morra!

McGuiness começou a ceder, mas não pela falta de ar. Parecia haver algo no fio envolto em seu pescoço que o envenenava lentamente, retirando a sua força. Enfraquecido, com certeza perderia a consciência em alguns segundos, e a cabeça logo em seguida. Fez uma última tentativa desesperada. Lançou-se com toda força que ainda lhe restava contra a parede. Conseguiu-se ouvir o som abafado das costas da enfermeira afundando a estrutura da parede, dada à força do pancada. Mas foi em vão. Ao invés de fraquejar, a mulher enlouquecida aumentou ainda mais a pressão, e um sangue escuro, quase negro, começou a escorrer pela mão de McGuiness. Este por sua vez já estava com a visão turva, quase sucumbindo. Estava perdido.

Segundos antes de finalmente se entregar ao doce beijo da morte, ouviu o barulho do disparo. A pressão em seu pescoço diminuiu simultaneamente ao jorro de sangue negro, misturado a pequenos pedaços de osso e miolos voando por cima de seu ombro esquerdo. Pode ver a pequena bala prateada cruzando o ar próximo a ele. Assustado, virou imediatamente, deixando que o corpo da mulher caísse pesadamente no chão. Viu Jones parado na porta do quarto, ainda com o cano da arma fumegante, olhando para ele com os olhos arregalados. A mulher estava no chão agora, e seu corpo se contorcia em espasmos.

– Mas que diabos está acontecendo com essa maldita cidade ?!

McGuiness esboçou um leve sorriso. Os dois, porém não tinham tempo a perder. Jones passou o braço pelas costas de Harper e o colocou de pé com a ajuda de McGuiness. O agente se adiantou alguns passos e então olhou de relance para trás. O misterioso homem parou ao lado do corpo da enfermeira que ainda se contorcia, derramou sobre ela o conteúdo de uma garrafa de álcool que estava caída no chão e acendeu um fósforo.

– Queime vadia.

Um grito horroroso foi ouvido e cessou logo em seguida, fazendo Jones estremecer por um momento. Enquanto a mulher se contorcia em meio às chamas, os dois homens arrastaram Jones pelos corredores. Os homens do Senador já estavam todos fora de ação, e eles não tiveram dificuldades em chegar ao carro no beco atrás do hospital, sumindo em seguida na escuridão da noite.

***

John C. Harper acordou como quem acorda de um pesadelo. Subitamente, ofegante, ele se viu sentado no banco de motorista de um carro, no meio do deserto mexicano. Sentiu-se perdido, pois a última lembrança que tinha era de estar deitado em um leito hospitalar. Quando ele se recompôs do susto, percebeu colado ao volante, um envelope branco, com a mensagem “Leia-me” escrito do lado de fora. Abriu-o com cuidado. A primeira coisa que percebeu foi o maço grosso de notas de dinheiro. Deveria haver cerca de dois ou três mil dólares. Junto a ele, um bilhete.

“Sua filha está te esperando no Hotel La Riviera, protegida pelo meu velho amigo Javier, da polícia mexicana. Queria colocá-la em um lugar melhor, mas achei melhor não chamar a atenção. É melhor você permanecer fora do radar por um tempo, enquanto eu ajudo o Kyrkman a reabrir o seu caso. Tem algum dinheiro para você se manter por uns dias. O resto do seu prêmio está depositado em uma conta segura. Javier lhe passara todos os detalhes. Quanto ao Senador, procure por notícias dele no noticiário em alguns dias.

Jones”

A esta altura o fugitivo já chorava compulsivamente. Tentou se acalmar por alguns minutos sem sucesso, até que finalmente conseguiu se controlar. Enxugou as lágrimas no rosto agora avermelhado, deu partida no carro e partiu. Ao longe, fora do campo de visão dele, Jones e McGuiness observaram o carro se distanciando na estrada empoeirada. Quando não podiam mais ver o veículo, Jones se voltou para o novo amigo e falou:

– Eu preferia acompanhá-lo até a cidade.

McGuiness entendia a preocupação do agente e o tranquilizou.

– Ele está seguro de agora em diante, eu posso lhe garantir.

Jones anuiu com a cabeça. Mas ele tinha mais dúvida em sua mente além da segurança de Harper.

– Já faz uns dias que tudo aconteceu, e ainda não acredito. Não há uma simples palavra em nenhum jornal, site ou noticiário de TV.

Misterioso, James sorriu para ele.

– Existem muitas coisas que você precisa aprender caso queira entender o que aconteceu aqui. Resta saber se você está disposto a mudar o rumo da sua vida.

Os dois homens permaneceram em silêncio por alguns instantes. Jones então desabafou.

– Eu não tenho família, sabe? Eu e minha falecida esposa nunca tivemos filhos. E eu já estou de saco cheio da burocracia do bureau há muito tempo… Fora que parece que o tal Tepesov me tem como inimigo agora. Aqueles homens que enfrentamos na saída da cidade com certeza não eram homens do Senador.

– Não eram. Mas o Senador é um deles. Ou pelo menos era. Ele colocou em risco segredos milenares com a sua busca louca. Tepesov já cuidou dele para nós.

McGuiness estendeu um jornal, onde uma das manchetes falava sobre o terrível incêndio que ocorrera na propriedade onde o Senador residia, vitimando a ele e mais alguns empregados. Jones arregalou os olhos.

– Eu ainda não entendo… Ele fez tudo isso por vingança? Ele teve diversas oportunidades para acabar com esse rapaz de forma discreta e limpa.

– Ele queria ressuscitar a filha. A morte do Harper na cadeira elétrica seria um sacrifício de amor, e tornaria isso possível.

Jones arregalou ainda mais os olhos. McGuiness continuou.

– Eu sei o quão confuso você deve estar. Mas tudo ao seu tempo. Precisamos colocar você em segurança agora. Afinal agora você é o fugitivo.

 

*** FIM ***

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