O Fugitivo – Parte 2

Fugitivo – Parte 2

Por Daniel Rossi

O agente Jones levou a xícara de café a boca e sorveu um gole. Imediatamente fez uma careta de nojo. O café havia ficado tanto tempo em sua mesa que já estava frio. Pegou a lixeira do lado da mesa e cuspiu ali mesmo, para o desgosto dos outros agentes que trabalhavam na mesma sala. Lançou um olhar irônico para eles e deu um risinho de canto de boca. Se voltou novamente para sua mesa de trabalho e levou os óculos ao rosto cansado e enrugado. Era um agente federal experiente, e não entendia porque ele havia sido destacado para achar aquele fugitivo mequetrefe. Pegou a pasta do criminoso sobre a mesa e começou a ler os relatórios.

John C. Harper. caucasiano, 1,80m de altura, oitenta quilos, cabelos e olhos negros… A descrição era bem genérica, e mesmo as fotos anexadas a ficha não evidenciavam característica nenhuma de pudesse facilitar a identificação do alvo de Jones. Continuou lendo a ficha, e viu que o mesmo havia sido condenado a cadeira elétrica por assassinar a esposa, filha de um influente político, que na época do crime era governador do estado e agora ocupava uma cadeira de senador.

– Ô Richardson, vem cá, meu filho! – Chamou o assistente como costumava sempre fazer, aos berros. O rapaz, recém integrado ao bureau, veio rapidamente de sua mesa. Estava pagando os pecados ao ser colocado como parceiro de Jones, mas tentava aproveitar a oportunidade, pois este era considerado uma lenda entre os agentes federais.

– Pois não, senhor? – O jeito extremamente educado de Richardson irritava Jones, e o fazia querer pegar ainda mais no pé do novato. Porém, ele se mostrava um agente dedicado e competente, o que agradava o veterano.

– Faz ideia de porque me colocaram atrás deste joão-ninguém? A polícia local podia muito bem cuidar dele. Eu queria ir atrás daquele mafiosinho sem vergonha! Esse sim merecia ser caçado por ter quase explodido a prisão inteira…

– Bem senhor, o crime dele tem a ver com um político influente, sabe como é… Além disso o caso dele tem uma circunstância inesperada…

– Richardson, parece que você tomou sopa de letrinhas hoje, né? Vai direto ao ponto garoto!

– Segundo as informações que recebemos, que inclusive estão ai no relatório em suas mãos – o novato não resistiu em dar uma leve alfinetada – o fugitivo em questão foi visto em um posto de gasolina onde abasteceu o carro em que estava fugindo. Neste ínterim, adquiriu alguns produtos no referido estabelecimento, entre eles uma raspadinha de loteria premiada em quinhentos mil dólares.

Jones arregalou os dois olhos carregados de olheiras. Richardson realmente havia conseguido chamar a sua atenção agora. O assistente continuou:

– Dada a natureza belicista daquele estado, o senhor deve imaginar que cada caçador de recompensa e maluco com uma arma estará atrás dele, não é? Os chefes em Washington estão com medo que isto se torne um banho de sangue. Ademais, o advogado dele fez um pedido formal para que ele fosse protegido e levado de volta para a prisão.

– Temos que salvar o homem dos cães raivosos para levar ele de volta para o matadouro… interessante. Como é o nome do advogado dele? Talvez eu precise falar com ele depois… Ele é do estado ou de firma particular?

– Ele é daquela firma de Nova York que pega estes casos perdidos senhor, a do Senhor Kyong.

– Aquele coreano safado, ele esfola estes idiotas enchendo eles de esperança…  E quem é o “porta de cadeia” que está responsável do nosso homem?

O assistente mexeu em alguns papéis sobre a mesa de Jones e encontrou a documentação do advogado. Entregou a papelada para o chefe.

– Kyrkman hein? Acho que já cruzei com ele antes… me deu um trabalho dos diabos. Lembro que ele era bom demais para estar naquela firma de merda… Tomara que ele não nos cause problemas desta vez.

Richardson anuiu com a cabeça.

– Bem, já que não tem jeito, vamos pôr o pé na estrada. Reserve um voo para nós e providencie um carro para quando chegarmos lá.

O assistente se levantou rapidamente para tomar as providências necessária, mas foi chamado de novo pelo parceiro.

– E Richardson…

– Sim, senhor?

O sorriso de orelha a orelha do agente Jones beirava a obscenidade.

– Me traz um café!

Continua…

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