O Fugitivo – Parte 3

Fugitivo – Parte 3

Por Daniel Rossi

O sol daquela tarde abafada o fazia suar profusamente dentro da batina. Atrás do volante, seus olhos pulavam constantemente da estrada a sua frente para o bilhete de loteria no banco do passageiro. Que noite maluca tinha sido aquela, em que ele escapara do corredor da morte para ser premiado com um golpe de sorte em um jogo de azar. Mas a sorte maior, e que lhe causava mais estranheza agora, era o fato de não haver bloqueios na estrada a procura dele. Mesmo assim, estava evitando as rotas principais, pegando atalhos por estradas vicinais. A região era cheia de fazendas, e ele a conhecia muito bem, da época em que vendia defensivos agrícolas junto com o pai na adolescência. Seguia agora por uma estrada empoeirada que passava em frente de uma dessas pequenas propriedades. Parou o carro a uma distância segura e observou a casa ao longe. Era uma propriedade familiar, com uma casa a frente, logo atrás de uma porteira branca e com plantações ao fundo. Viu quem deveria ser provavelmente o dono sair em uma velha caminhonete. Na casa, ficara apenas a esposa, uma velha senhora que ele viu se despedir do marido e caminhar até o quintal da casa, onde ela pendurava algumas roupas no varal.

Percebeu então a oportunidade: precisava desesperadamente se livrar daquela batina de padre, pois andar com ela por ai agora era como ter um alvo pintado nas costas. Tampouco podia usar a roupa laranja espalhafatosa de presidiário. Ligou o carro e dirigiu até a entrada da pequena propriedade e desceu do carro. A velha senhora, curiosa, veio do quintal em sua direção, e pareceu surpresa ao ver o “padre” descendo do velho automóvel.

– Boa tarde senhora, eu sou o padre… – hesitou por um instante. – Harper. Estou coletando doações de roupas para os menos favorecidos. A senhora não teria algumas roupas velhas da senhora ou de seu marido para doar?

A senhora se aproximou mais, e John conseguiu ver o crucifixo pendurado no pescoço dela. Aquilo lhe tranquilizou um pouco, pois tremia muito agora, apesar do calor.

– Ah, mas é claro seu padre, faça o favor de entrar. – Acolheu. Ela lhe indicou a porta e os dois entraram. Ela o fez sentar em uma mesa que ficava no que parecia ser uma sala de jantar, separada da cozinha por uma porta basculante.

– Fique à vontade seu padre, eu tenho umas roupas separadas do meu marido e do meu filho mais velho que ia doar para o asilo na cidade, mas já que o senhor está aqui. – Deu de ombros.

– Deus a abençoe, senhora.

A mulher subiu as escadas da casa e voltou alguns minutos depois com uma caixa de papelão com algumas roupas dobradas dentro dela. Havia camisas e calças e em cima delas, um par de sapatos marrom. Ela colocou a caixa sobre a mesa e olhou para o padre.

– Está aqui. Mas olha que falta de educação a minha, o senhor está ai suando em bicas neste calor e eu nem lhe ofereci uma bebida gelada. O senhor gostaria de uma limonada?

– Não quero dar trabalho… – John já ia se esquivando. Queria sair dali o mais rápido possível, mas não podia chamar a atenção. A mulher poderia ligar para a polícia e colocar em risco a sua fuga.

– Trabalho nenhum, imagina. – A senhora apoiou a mão em seu ombro e foi em seguida para a cozinha, de onde John pode escutar o som de uma velha canção que vinha de uma pequena TV preto e branco dentro do cômodo. Ficou absorto em pensamentos por alguns instantes, até que a velha senhora voltou com uma jarra de limonada gelada, que ele apreciou sem moderação.

– O senhor estava mesmo com sede hein, padre? – A velha sorriu para ele. Conversaram amenidades por mais alguns minutos, um tempo razoável para que John julgasse que era prudente ir embora sem levantar suspeitas. O marido da mulher poderia chegar a qualquer momento e ter ouvido a história do padre fugitivo.

– Senhora, eu vou indo, tenho mais casas para pedir doações.

– Ah, que pena. Mas deixe-me embrulhar algumas broas de milho para que o senhor leve.

Apesar da limonada, o estômago de John estava roncando. Resolveu correr o risco e garantir alimento para mais um tempo. Só que desta vez a senhora se demorou um pouco mais, e ele começou a ficar nervoso. Resolveu que seria mais prudente sair correndo dali, pois mesmo que se a mulher ligasse para a polícia, já estaria longe. Porém, no momento em que se levantou da cadeira, a porta basculante se abriu e a senhora voltou. Só que ela não tinha as broas de milho nas mãos.

– O senhor realmente caiu do céu padre! – A velha tinha um sorriso torto na boca com apenas alguns dentes.

Das mãos dela, os dois canos da espingarda o observavam como dois olhos atentos. Viu por cima do ombro da senhora a TV ligada mostrando a gravação do circuito de câmera do posto de gasolina onde havia parado antes. A locução falava sobre como o fugitivo da lei havia retirado no posto um bilhete premiado em quinhentos mil dólares.

– Quinhentos mil, você realmente é um filho da mãe de sorte. – Balbuicou.

John se desesperou e tentou correr. A velha puxou o gatilho e quase foi arremessada para dentro da cozinha de novo, tamanho o coice da arma. A jarra de limonada sobre a mesa explodiu em mil pedaços, mas John não foi atingido. Corria agora, com a caixa de roupas apertada contra o peito em direção ao seu carro. Sentia o coração tentando sair pela boca, enquanto tentava impedir que a batina enroscasse nas pernas e o derrubasse no chão. A velha emergiu da porta da casa, recobrada do coice da arma, gritando histericamente:

– Volte aqui seu pilantra filho de uma égua!

Ela apontou a espingarda e deu o segundo tiro. Este acertou em cheio uma das lanternas traseiras do carro, mas John já arrancara com ele, levantando poeira na velha estrada. Com certeza não demoraria agora para a polícia ter uma posição mais certa sobre sua localização. Precisava se livrar do carro e das roupas se quisesse continuar a busca por sua filha. Dirigiu então por mais alguns minutos, tempo suficiente, acreditava ele, para não ser mais surpreendido por uma idosa raivosa com uma espingarda de cano duplo.

Viu ao longe uma parada de caminhoneiros. Parou o carro, trocou a batina pelas roupas do marido da senhora e continuou a pé. Caminhou por mais ou menos dois quilômetros até chegar ao pátio cheio de caminhões. Os motoristas deviam estar dentro da lanchonete ou no dormitório anexo. Perambulou por entre as carretas até que viu uma que estava com o vidro abaixado. Não sabia dirigir caminhão, mas podia encontrar algum dinheiro ou roupas. Subiu na boleia e teve sorte, encontrando alguns dólares jogadas no painel e uma jaqueta, que lhe ajudaria caso tivesse que dormir no deserto aquela noite.

Porém, quando desceu da cabine, foi surpreendido.

– Olha só o que o vento trouxe… – Uma voz disse, vindo de suas costas.

Sentiu o cano gelado da .44 encostar em sua cabeça.

Continua…

 

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