O Fugitivo – Parte 4

O Fugitivo – Parte 4

Por Daniel Rossi

 O funcionário do alto escalão do FBI não gostava quando o Senador marcava reuniões. Elas eram geralmente tarde da noite, bem fora dos horários “ortodoxos” do bureau. E ele sempre tinha que estar cedo no escritório, não importava se as reuniões se prolongassem por várias horas noites a dentro. O Senador por sua vez parecia estar sempre bem disposto.

– Deve estar cheio de cocaína, o desgraçado. – Pensou em silêncio enquanto caminhava pelos corredores do congresso.

Entrou na ampla sala que dava acesso ao gabinete do senador e como já não havia secretária trabalhando naquele horário, caminhou até a porta e bateu duas vezes.

– Pode entrar. – A voz grave do Senador veio do lado de dentro. O funcionário abriu a porta e entrou.

O Senador era um homem alto, com cerca de 70 anos. Tinha um porte físico que impunha respeito, herança do tempo em que servira como militar. As paredes do seu gabinete eram forradas por fotos de guerra, onde ele aparecia junto a outros militares em diversas operações pelo mundo. Colecionava também armas antigas, que pendiam expostas nas paredes do gabinete.

Utilizara o prestígio como herói de guerra para se eleger, e era uma das bolas da vez para a eleição presidencial que se aproximava. Estava agora sentado em sua mesa, baforando um enorme charuto e observava o diretor do FBI parado em sua porta.

– Por favor, sente-se… Dick. – Chamou pelo apelido o funcionário do FBI. Sabia que ele odiava ser chamado assim, mas fazia isso de propósito, para deixar implícita a sua superioridade perante o federal. Este por sua vez sorriu um sorriso amarelo e puxou uma cadeira, posicionando-se a frente da mesa do senador.

– Vou direto ao assunto. – Deu mais uma baforada, enchendo o ar da sala, que já estava a meia luz, de fumaça. – Quero novidades sobre aquele nosso… “problema”.

Dick se empertigou na cadeira, como se a pergunta o tivesse incomodado, antes de responder.

– Já enviei o meu melhor agente para lá Senador. Ele achará e trará o nosso homem rapidamente, posso lhe garan…

O senador o interrompeu antes que ele pudesse completar a frase.

– Acho que não preciso ressaltar novamente a importância de ele ter o mínimo de contato com as autoridades locais não? Ele não deve falar com nenhum policial ou autoridade que não esteja sob o nosso… “controle”. Já tivemos muitos problemas com aquele maldito advogado dele.

O agente se lembrou do advogado brilhante que quase havia livrado Harper do corredor da morte, fazendo tanto estardalhaço que ficou impossível “eliminar” o problema do desafeto do senador sem chamar atenção exagerada da imprensa. Apesar que na época, ele acabou usando o fato do assassinato da filha para impulsionar mais ainda o seu carisma político frente a opinião pública.

– Sim, senhor senador, o senhor deixou isto bem claro no “recado” que seus homens me enviaram. – Dick odiou a si mesmo pela frase.

Estava desconcertado como ele, um diretor do FBI poderia ser intimidado pelos capangas daquele maldito texano. Porém ele tinha ligações escusas demais com o senador para não fazer o que ele queria. Este fora grande responsável inclusive pela sua ascensão meteórica dentro do bureau. As vezes achava que o senador tinha poderes muito maiores do que o cargo que ocupava.

– Na verdade chegou ao nosso conhecimento que ele acabou colocando as mãos em um bilhete premiado de loteria, e cada caçador de recompensa do estado deve estar atrás dele neste exato momento. É bem provável que só recuperemos o corpo dele.

– Excelente. – O charuto dançou na boca do político. – Você sabe como este “assunto” é delicado para mim, garoto.  – Seus olhar pousou sobre um porta retrato sobre a mesa, onde havia uma foto de sua falecida filha. O “garoto” em sua frase irritou mais ainda o federal, mas o senador ignorou completamente sua cara de insatisfação. Se levantou e caminhou até um pequeno aparador, onde se serviu de uma bebida.

– Eu lhe ofereceria um drink, mas acho que esta beleza aqui é muito forte para você Dick. – Sorveu um pouco do líquido. O agente ficou ainda mais irritado, e resolveu alfinetar o “chefe”.

– Seu segredo estará logo em segurança Senador.

A reação do senador quase causou um ataque cardíaco no federal. Ele deixou o copo cair da mão e avançou em direção a ele, agarrando-o pelo terno e o levantando da cadeira com violência.

– Escute aqui seu fedelho de merda. – Esbravejou, jogando perdigotos no rosto do atônito funcionário. – Aquele maldito é o único responsável pela morte da minha filha, entendeu? Entendeu?

– Sim… sim senhor. – Dick se impressionou com a força do senador, e quase caiu, perdendo o equilíbrio, quando ele o soltou.

– Suma daqui seu verme! – Ordenou furioso o político. – Só volte aqui quando tiver cumprido a sua maldita missão!

Dick tentou se recobrar do susto o melhor que pode e saiu o mais rápido possível do gabinete. Lá dentro, o Senador caminhou até onde havia deixado o copo cair. Recolheu-o do chão e olhou para o fundo dele, onde havia ainda um pouco de líquido.

Virou-se, e novamente seus olhos recaíram sobre a foto da filha falecida, supostamente assassinada pelo fugitivo que ele considerava já como um caso morto e enterrado. Teve mais um rompante de fúria, e arremessou o copo contra a porta do próprio gabinete.

Longe dali, o Agente Jones e seu parceiro começavam a busca por John C. Harper.

 

Continua…

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