O Fugitivo – Parte 5

O Fugitivo – Parte 5

Por Daniel Rossi

Se sentia estranho e confuso. A coronhada na cabeça o deixara desacordado por vários minutos. Ela não doía assim havia muito tempo. Ouvia sons desconexos e frases soltas no ar. Não estava mais ao ar livre. O ar pesado quase o sufocava, cheia de fumaça de cigarro. Queria abrir os olhos, mas as pálpebras não conseguiam se mover. Parecia estar em uma espécie de sala de recreação, já dentro das dependências da parada de caminhoneiro onde havia sido surpreendido tentando “pegar emprestado” algumas coisas da boleia de um caminhão.

– Faz tempo que ele está desacordado…

– Ele tem sorte de eu não ter estourado os miolos dele.

Silêncio e trevas. Algum tempo depois a visão voltou e John escutou mais algumas palavras:

– O bilhete… o bilhete não está com ele Rufus.

Estavam confusos. Não restava dúvidas que aquele era o fugitivo do bilhete premiado. Tinha de ser. John abriu um pouco os olhos e observou seus captores andando pela sala mal iluminada. Percebeu pelo menos cinco pessoas se movendo pela sala. Poderiam haver mais, mas estavam fora do seu campo de visão. Nesse momento finalmente percebeu a sua situação. As mãos estavam amarradas atrás da cadeira com uma corda. Com a consciência retornando aos poucos, percebeu suas roupas jogadas sobre uma mesa a sua frente, dando-se conta finalmente que estava nu. Sentiu um desespero enorme, mas a vontade de gritar foi menor do que o medo de chamar a atenção dos homens que o mantinham em cativeiro. Estes confabulavam entre si furiosamente, de costas para ele, alguns metros dali.

– Onde esse maldito enfiou esse maldito bilhete! Você olhou direito a sacola dele?

– Revirei tudo, só havia umas roupas velhas e broas de milho!

– Esse puto deve ter engolido o bilhete. Eu voto por abrir a barriga dele e procurar!

Na cadeira em silêncio, John sentiu um formigamento subir-lhe pela coluna. Iria morrer ali, com certeza.

– Ninguém vai abrir a barriga de ninguém. – O caminhoneiro mais alto falou aos outros quatro. Parecia uma espécie de “líder de gangue”, se é que é possível haver uma gangue de caminhoneiros. – Pelo menos não aqui na nossa sede.

Um sentimento de pequeno alívio se instalou no peito de John, mas durou pouco.

– Eu já matei um cara, Rufus! – Um sexto caminhoneiro entrou pela porta da sala. Os companheiros o olharam com surpresa. A voz dele era engraçada, dava a impressão que estava meio embriagado, mas John logo percebeu que ele provavelmente tinha algum tipo de problema motor. Rufus, o caminhoneiro mais alto deu uma risada nervosa.

– É mesmo Walter? – Conteve uma risada. – Nos conte como foi, então!

Walter se surpreendeu com a reação de Rufus. Sua tentativa de ganhar moral com os companheiros parecia ter saído pela culatra. Ficou desconcertado.

– Bem, na verdade o padrasto do meu amigo Tyrone estava embaixo do carro dele arrumando alguma coisa e eu entrei com a minha bicicleta correndo na garagem. Trombei com o carro e o macaco escapou…

As gargalhadas encheram a sala. Rufus colocou a mão no rosto e balançou a cabeça em movimentos de negação, lembrando de como aquela história o havia atazanado. Então desabafou.

– Walter, seu filho de uma égua, eu não te disse para ficar lá fora vigiando?

O rapaz se empertigou. O rosto se contorceu em uma careta que dava a impressão que choraria a qualquer momento. Os outros rapazes riram, e dois que estavam mais no canto comentaram baixinho por que Rufus ainda mantinha o rapaz no grupo. Na verdade Walter era seu sobrinho, filho de uma irmã que havia caído no mundo com um bando de ciganos e largado o menino para trás com a mãe. Quando esta morreu, a tarefa passou para o “titio” Rufus.

– Vamos idiota, o que você está fazendo aqui dentro? Fala logo ou vou arrancar o teu couro!

– Eu… eu… – Walter gaguejou, tropeçando na própria língua. – é que o Thomas avisou pelo rádio que dois federais estão na fazenda dos Walton fazendo perguntas sobre esse ai. – meneou a cabeça em direção a John, que seguia fingindo estar desacordado. As risadas pararam imediatamente.

– Mas que inferno! O que os federais querem com este pé-rapado? – Rufus se indagou.

– É melhor a gente dar uma olhada Rufus. – um dos outros rapazes sugeriu.

– Walter, – Rufus se virou para o sobrinho. – você seria capaz de ficar de olho no nosso homem aqui até a gente voltar?

– É… é claro Rufus. – Walter continuava tropeçando nas palavras.

– Bem, vamos dar uma olhada nestes dois tiras. – Rufus fez um sinal com a cabeça para os outros “companheiros” e eles imediatamente começaram a se encaminhar para a porta.

John observou Walter sozinho na sala por mais alguns minutos. Viu-o queimar a ponta dos dedos enquanto tentava mexer em uma cafeteira velha que havia em uma pia velha no canto da sala. Ele desistiu do café e sentou em um sofá de frente para John. Abriu um exemplar de Homem Aranha e começou a ler. Alguns minutos se passaram desde que a gangue havia saído, e John resolveu que era hora de agir. Se a gangue voltasse, sabe-se lá o que fariam com ele.

– Ei Walter. – falou com um tom de voz baixo, para não assustar o rapaz. Walter arregalou os olhos e o observou por cima da revista em quadrinhos. Ele abaixou a revista e finalmente John tinha a sua esparsa atenção.

– Você parece ser um bom garoto… – John continuou no tom suave. – O que acha de ficar rico?

Continua…

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