O Fugitivo – Parte 6

O Fugitivo – Parte 6

Por Daniel Rossi

Demorou cerca de uma hora e meia para que a mente confusa de Walter percebesse o que JohnHarper havia lhe proposto. Ele queria trocar a sua liberdade pelo bilhete premiado que tinha escondido sabe se lá onde. Com muito custo John conseguira convence-lo a libertá-lo e levá-lo em um dos caminhões estacionados do lado de fora até a sua filha, e depois até a fronteira com o México. Viajar escondido em um caminhão parecia ser uma boa ideia, e o fato de que os comparsas de Walter provavelmente o matariam e a si mesmos lutando pelo bilhete premiado não lhe dizia respeito. A única coisa que importava era Roxanne. E a liberdade.

Quando o confuso rapaz o desamarrou, vestiu-se o mais rápido que pôde. Os truculentos caminhoneiros poderiam regressar a qualquer momento. Pegou uma das broas de milho que trazia e tirou de lá de dentro o bilhete de loteria, cuidadosamente inserido na massa macia do alimento. Tinha sido o esconderijo perfeito, já que por sorte nenhum de seus captores resolvera fazer um lanche. Mostrou o bilhete a Walter que fez menção de pegá-lo. John recuou.

– Nada disso Walter. Quando eu cruzar a fronteira ele será todo seu, mas por enquanto ele fica comigo. – Guardou o bilhete no bolso da calça jeans surrada.

Walter o olhou com desconfiança, mas já tinha ido longe demais para voltar atrás. Saíram os dois em passo acelerado rumo ao estacionamento do lado de fora.

Uma hora antes…

– Tem alguma coisa errada aqui. – Richardson olhava os papéis soltos dentro da pasta surrada, tentando não derrubar tudo devido ao sacolejo do carro na estrada mal tratada pelos caminhões e pelo tempo.

– Você quer dizer além de estarmos neste fim de mundo seguindo um foragido mequetrefe? Ou talvez você se refira aos seis trogloditas que estão nos seguindo naquela Kombi velha desde que saímos da fazenda e encontramos o carro de Harper abandonado?

Richardson ignorou os comentários sarcásticos do superior, como era inerente ao seu pragmatismo e fleuma.

– Me refiro aos detalhes da nossa perseguição. Harper deveria estar se encaminhando o mais rápido possível para a fronteira, mas o caminho que ele vem fazendo não faz sentido.

– Talvez ele queria encontrar algo ou alguém… – Jones respondeu, despreocupado.

– Ele não possui parentes vivos conhecidos. Na verdade a única pessoa que ele tem algum tipo de parentesco é o Senador, que é seu ex-sogro.

– Nenhum filho, primo, sobrinho? –O agente Jones pareceu se interessar um pouco mais.

– Não que conste nos registros. Muito estranho.

– De qualquer forma isso está facilitando a nossa vida. Não estou com vontade nenhuma de ter que viajar ao México neste momento.A não ser que seja para tomar tequila em alguma praia de Acapulco. – Jones deu de ombros. – Qual a nossa próxima parada?

– A única coisa antes da cidade por esta estrada é uma parada de caminhoneiros, uma milha e meia a frente. – Richardson conferiu o mapa surrado que traziam consigo. O GPS parecia ser inútil naquela área.

– Não é muita coisa, mas vale a pena dar uma olhada. Talvez lá a gente descubra quem são esses malditos brutamontes nessa lata velha aí atrás.

O carro seguiu levantando poeira da estrada, rumo a parada de caminhoneiros. Avistaram a parada de caminhoneiros e entraram pelo estacionamento, onde haviam duas carretas paradas e um caminhão sem carreta atrelada. Desceram do carro a tempo de ver Walter e John Harper saindo por uma porta lateral. Os agentes sacaram rapidamente as suas armas.

– Parados! FBI!

O abobado caminhoneiro e o fugitivo estacaram no lugar. O plano havia falhado antes mesmo de começar.

– Virem-se, bem devagar.

O agente Jones percebeu a Kombi passando na estrada atrás de si. Aparentemente não havia parado.

– Richardson, reviste-os. – Ordenou.

Richardson seguiu com cautela em direção aos dois homens. Jones o observava atentamente até o momento em que percebeu com o canto do olho o reflexo do sol na .44 cromada de Rufus.

– Arma! Para o chão! – O experiente agente berrou, se jogando do jeito que pôde atrás de um tambor vazio.

O caos se instaurou. Rufus e seus capangas iniciaram o tiroteio. A cobiça pelo bilhete premiado fora maior que a razão. Disparavam agora contra os dois agentes federais.

Alertado pelo companheiro, Richardson se abrigou como pôde atrás do caminhão que Harper e Walter iriam usar para a fuga e revidou os tiros. Estes por sua vez se abrigaram como puderam atrás do agente, que de certa forma os protegia agora. Porém quando a situação chegou ao ápice da tensão, Walter se desesperou e pulou loucamente na boleia do caminhão. Ligou-o e acelerou, porém um tiro, que depois se descobriria que viera da arma do próprio tio, o acertou entre os olhos. O corpo inerte de Walter pesou sobre o acelerador, fazendo o caminhão se precipitar sobre o campo de batalha, deixando Richardson e John momentaneamente vulneráveis. O caminhão atropelou três comparsas de Rufus, e a confusão foi o suficiente para que Jones baleasse Rufus e o colocasse fora de ação. Vendo o chefe caído, os outros dois homens correram, entrando na Kombi estacionada alguns metros à frente de onde o tiroteio tivera lugar.

O agente Jones chutou a arma de Rufus para longe e então se encaminhou para o local onde Richardson e Harper estavam. Quando toda a poeira levantada finalmente deixou-o enxergar com clareza, viu uma cena insólita: Richardson havia sido baleado na perna, e o fugitivo o socorria, aplicando pressão sobre o ferimento, que jorrava quantidade considerável de sangue.

– Ele precisa de um médico! – John olhou para o agente com os olhos arregalados e o coração quase saindo pela boca. Jones se aproximou cuidadosamente, apontando a arma para Harper.

– Você não me ouviu, ele precisa de um médico! – Insistiu o fugitivo. Richardson tremia de dor, começando a ficar pálido.

– Você, tire o seu cinto e faça um torniquete na perna dele! – O agente ordenou.

Harper rapidamente obedeceu, retirando o cinto e passando pela perna do policial ferido, logo acima do ponto onde a bala o havia acertado. A ferida começou a sangrar violentamente quando as mãos de John pararam de pressioná-la, mas o sangramento diminuiu quando ele apertou o cinto o mais que pôde. Neste ponto Richardson perdeu a consciência.

– Agora levante-se devagar. – Jones ordenou, ainda apontando a arma para o fugitivo. Este se levantou lentamente, as roupas empapadas de sangue do policial ferido.

– Agora corre! Vamos, corre! – John ficou perplexo com a ordem do policial, mas virou-se rapidamente e pôs-se a correr.

O agente Jones então mirou cuidadosamente e puxou o gatilho.

 

Continua…

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