O Fugitivo – Parte 7

O Fugitivo – Parte 7

Por Daniel Rossi

 

Albert Kyrkman bateu o telefone de seu apartamento no gancho abruptamente. Seu cliente havia finalmente sido encontrado, mas da forma que ele mais temia. Um agente federal que o caçava acabou baleando-o, e ele agora convalescia em uma cama de hospital.

– Pelo menos ele está vivo. – Pensou silenciosamente, enquanto recolhia alguns documentos apressadamente em sua escrivaninha.

Tratando-se da cidade do hospital onde estava internado, teria que tomar as providências para que ele tivesse o mínimo de seus direitos garantidos, e só conseguiria isso se fosse pessoalmente até lá. O lugar deveria estar fervilhando de curiosos e escória de todo tipo em busca do “fugitivo da sorte grande”, como a imprensa o vinha chamando. Enquanto jogava algumas roupas em uma mala, Kyrkman relembrava os detalhes daquele estranho processo.

John C. Harper era uma pessoa bem diferente daquelas que ele estava acostumado a defender: não tinha traço nenhum de ser um psicótico que mataria a esposa, filha de um proeminente senador, a sangue frio. Em contrapartida, parecia esconder algum tipo de segredo, perigoso demais para ser revelado. Talvez tivesse medo do senador. Aliás, este sim tinha causado arrepios no advogado nas duas breves vezes em que haviam se encontrado em cortes durante o processo de condenação do seu cliente.

Alguma coisa não deixava Kyrkman simplesmente aceitar que seu cliente fosse culpado. Na verdade Harper nunca havia se declarado culpado, mas esteve tão apático durante todo o seu julgamento que tornou praticamente impossível para Kyrkman o ajudar. A existência de uma testemunha, um guarda-costas do senador que teria visto o condenado atirando na mulher colocou em xeque toda a defesa que tinha arquitetado, e a juíza Carmichael, uma ferrenha ativista contra a violência doméstica condenou com satisfação Harper a cadeira elétrica. Albert lembrou como o cliente se limitou a chorar silenciosamente quando ouviu o veredicto. Desde então Kyrkman vinha se empenhando em comutar a pena em prisão perpétua, mas sem sucesso. Agora com a fuga de seu cliente do presídio, esta possibilidade se mostrava cada vez mais distante.

Havia ligado para o Sr. Kyong, seu chefe, e este lhe arrumou lugar em um voo noturno. Mas teria que se apressar, pois ele partiria em menos de duas horas, e ele tinha um longo caminho até o aeroporto. Pegou uma pasta grossa que continha os detalhes sobre o caso e acomodou-a em uma acanhada maleta. Quando se preparava finalmente para sair, escutou baterem na porta do apartamento. Xingou em silêncio, imaginando que seria o proprietário de seu prédio querendo cobrar o aluguel atrasado. Em parte pela correria com o caso de Harper e em parte pelo dinheiro estar curto mesmo, tinha se “esquecido” dele naquele mês.

– Um momento. – Falou em voz alta enquanto procurava alguns trocados nos bolsos para inteirar a quantia que devia.

Ouviu-se as batidas na porta uma vez mais. Kyrkman achou estranho, então apressou-se para atender. Surpreendeu-se com dois homens elegantemente vestidos parados à sua porta da frente.

– Sr. Kyrkman, eu sou o detetive Nolte e este é meu parceiro, detetive Murphy. – Albert fitou com desconfiança o detetive alto e loiro e seu acompanhante, um negro magro e de cabeça raspada, assim como ele.

– Podemos falar com o senhor por um minuto? – Nolte continuou.

– Senhores, receio que agora não é um bom momento, estou de saída para uma viagem a trabalho. Se for algum problema com algum cliente meu, podem ligar para meu chefe e ele tomara as providências necessárias. Estarei à disposição de vocês assim que retornar.

Os agentes se entreolharam rapidamente e então o detetive Murphy, até então calado, falou:

– Creio que o senhor não entendeu a gravidade da nossa visita, Sr. Kyrkman. O senhor esteve em uma entrevista de emprego ontem com a Dra. Bullock, da Brigance, Vonner & Bullock Advogados?

– Hã… – Albert engasgou, espantado que a polícia estivesse a par da sua entrevista de emprego, que ele cuidadosamente havia vindo escondendo de seu chefe nos últimos dias. – Sim, eu estive com ela ontem, por volta das sete, oito da noite.

– Exatamente a informação que temos Albert. – O detetive Nolte tirou o “Sr. Kyrkman” da conversa, tentando intimidar o advogado.

– E temos a informação também que ele foi encontrada com a garganta cortada em seu escritório por volta das onze da noite. O senhor foi a última pessoa que esteve com ela. – Murphy completou.

Albert estacou. Os olhos arregalados de surpresa fitaram os dois detetives. Seu rosto deixava transparecer o quão atônito ele estava.

– Não é possível… – Gaguejou.

– Acho que não é nem necessário dizer que você terá que nos acompanhar até a delegacia para prestar esclarecimentos, não é Albert? – Nolte sorriu com malícia.

– É claro… é claro. – De repente toda a urgência de sua viagem perdera a importância. – Só tenho que dar um telefonema e podemos ir. – Disse com um tom de voz desanimado.

Foi até o telefone e ligou para o Sr. Kyong. Precisava providenciar um advogado para Harper, e além disso avisar ao empregador que estava sendo investigado por assassinato.

O coreano disparou um monte de impropérios contra Albert, mas não por ele estar sendo investigado pela polícia, mas sim pelo fato de Albert ter ido fazer uma entrevista de emprego sem lhe dizer nada. Kyrkman desligou o telefone ainda no meio da rajada de xingamentos e virou-se para os policiais, que já estavam dentro do apartamento, discretamente dando uma olhada no lugar.

– E eu pensei que ganhava mal. – Murphy sussurrou para Nolte, espantado pela simplicidade, para não dizer pobreza, do apartamento do advogado.

– Nem me fa… – Nolte interrompeu a frase quando percebeu que Albert já havia desligado o telefone e os observava com certa raiva pelos comentários inoportunos.

– Podemos ir. – Albert pegou um telefone celular sobre a mesa e se dirigiu em direção a porta, acompanhado de perto pelos dois detetives. Na rua alguns andares abaixo, um carro os aguardava para levá-los até o Departamento de Polícia.

Longe dali, John C. Harper recobrava a consciência em seu leito de hospital. E a primeira coisa que viu foi a cara enrugada pelo sorriso sarcástico do agente Jones, sentado ao lado de sua cama.

– Bem vindo de volta à terra dos vivos, Harper!

 

Continua…

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