O Fugitivo – Parte 8

O Fugitivo – Parte 8

Por Daniel Rossi

O cheiro de álcool e produtos de limpeza fizeram seu nariz arder. O quarto bem iluminado ofuscava a sua visão, que retornava aos poucos devido à medicação a que vinha sendo submetido. Quando conseguiu focar melhor, percebeu o agente Jones observando-o, sentado em uma cadeira ao lado de sua cama. A cadeira estava ao contrário, e Jones apoiava os braços no encosto da cadeira, e estes davam sustentação a sua cabeça. Quando ele percebeu que Harper já podia compreendê-lo, sorriu.

– Bem vindo de volta ao mundo dos vivos.

– Você… atirou… em mim… – Harper ainda não estava totalmente alerta, e tropeçava nas palavras.

– É, eu atirei… – O agente levantou-se e colocou a cadeira mais próxima do leito.

– Seu amigo… ele…

– Ah, o Richardson vai ficar bem. Graças a você, aliás.

– Eu não entendo… porque você atirou em mim. – Harper lentamente recobrava a lucidez.

– Eu ganhei tempo para você. – Jones percebeu que Harper ficou apenas mais confuso. – Se eu tivesse apenas prendido você naquela hora, você já estaria de volta em algum presídio federal. Mas devo confessar que você é interessante demais para ser devolvido assim.

– Eu não compreendo… – Harper sussurrou.

– Você tem a chance de escapar de um presídio de segurança máxima. O que você deveria fazer? Se mandar para a fronteira o mais rápido possível. No entanto, ficou perambulando por estas bandas procurando Deus sabe o que. Se mete no meio de um tiroteio entre federais e caminhoneiros malucos e quando a poeira abaixa está socorrendo um dos agentes que iriam prendê-lo em primeiro lugar. Você deve concordar comigo que este não é o comportamento que se espera de um condenado à morte fugitivo com um alvo nas costas.

– Eu… – Harper hesitou. – só fiz o que achava certo.

– Exato! – Jones abriu de novo o sorriso largo na cara enrugada. – Ninguém faz mais nada neste mundo por achar “certo” rapaz, muito menos um assassino fugitivo. Mas eu não vou te enganar, tem mais coisa que não me cheira bem na sua história.

O agente abriu uma pasta que continha a ficha e detalhes do processo de John.  Colocou os óculos de leitura e pareceu verificar novamente alguns detalhes.

– Você teve um advogado brilhante e é uma pena que ele não esteja aqui agora. Ele lhe conseguiria mais alguns dias neste hospital e me ganharia tempo. Mas parece que ele tem os seus próprios problemas agora, o que torna tudo isso ainda mais suspeito, se você quer saber a minha opinião.

Harper, que não sabia dos recentes problemas de Albert Kyrkman com a lei continuou sem entender nada.

– Mas o meu ponto é: você parece que queria ser condenado… apesar de alegar inocência. E o fato de o senador estar envolvido torna isso ainda mais interessante para mim.

– O que tem o senador? – Harper teve a atenção despertada pela menção ao ex-sogro, e o agente Jones percebeu.

– Há algum tempo atrás, eu investigava uma quadrilha de tráfico de órgãos… só que a investigação me levou a desconfiar de pessoas muito importantes, entre elas o seu querido sogro. Eu tinha tudo armado para uma operação para desmantelar a tal quadrilha, mas mantive tudo em segredo. Sou esperto o bastante para não mexer com as pessoas erradas…

O agente fez uma pausa, parecendo pensar no que acabara de dizer. Então continuou.

– Como eu dizia, eu tinha tudo para ligar esta quadrilha com o senador. Mas quando finalmente resolvi invadir um dos depósitos dele, apenas encontrei uma quantidade absurda de bolsas de sangue, o que apesar de ser muito esquisito, não é ilegal… O fato é que depois disso comecei a perceber que o senador era mais esperto do que eu suspeitava, e resolvi deixar tudo em segredo até que algo mais sólido aparecesse. E agora estou eu aqui falando com você.

– Eu não entendo… O que eu tenho a ver com tudo isso… – John tentava acompanhar o raciocínio do agente, mas não conseguia (ou não queria) entender do que ele estava falando.

– É simples meu caro. Meu instinto está me dizendo que talvez você não seja o que aparenta ser… E que talvez você seja a peça que falta para eu montar o quebra-cabeças e chegar até o senador.

John engoliu em seco. Lembrou de todo o pesadelo que vivera nos quase três anos em que estivera no corredor da morte. De como a explosão no presídio veio num momento de profundo desespero, e ele nem pensou duas vezes em fugir. Relembrou o plano maluco que traçara para encontrar a filha. E em como tudo isso acabava se resumindo ao ódio que sentia do ex-sogro. Tomou coragem e falou.

– Eu tenho uma filha, fruto do meu relacionamento com Joana, a filha do senador.

Jones ficou chocado. Este era um fato totalmente novo, e dava novas cores ao caso. Esta neta do senador não era do conhecimento público, e o fato de ele a estar escondendo do mundo cairia como uma bomba na imprensa.

– O que você está me dizendo não faz sentido nenhum… por que o senador esconderia a neta?

– Talvez por ela ser fruto do relacionamento da filha dele com um maldito judeu. – John desabafou.

O agente Jones olhou novamente os papéis na pasta em sua mão.

– John C. Harper… “C” de Chaskel… Você quer me dizer que um senador dos Estados Unidos mantém a própria neta como refém por ela ser filha de um judeu? Quem mais ele odeia? Negros? Latinos?

– É a única explicação que encontrei. O senador é um homem com muitos defeitos. – John tinha ódio na voz.

– Mas e o assassinato da filha?

– Foi ai que a história desandou. Ela descobriu as… “coisas” que o pai fazia e me contou. Nós decidimos fugir, ela pretendia entregar o pai para a polícia, levar o que tinha descoberto à imprensa. Ela tinha acabado de dar à luz, e tivemos medo por nossa filha. A gravidez foi mantida em segredo por que o Senador nos convenceu que ela poderia ser usada contra ele por adversários políticos. As minhas “diferenças religiosas” com ele não permitiram que nós nos casássemos formalmente, entende? 

O agente Jones anuiu com a cabeça afirmativamente. Harper continuou:

– É claro que o senador enviou os seus homens atrás de nós, com ordens de me matar e levar a filha e a neta de volta. Mas… – A voz de Harper ficou embargada e ele soluçou. As lágrimas começaram a correr pelo rosto pálido.

– As coisas não saíram como o Senador planejou, não é? – O agente Jones sentiu um nó no estômago. Sabia que o seu investigado não era um político exemplar, mas não sabia que seu nível de sordidez fosse tão grande.

Harper engoliu o choro e continuou.

– Ele disse que seria suspeito demais nós dois aparecermos mortos ou sumirmos… Então eu teria que levar a culpa pelo crime, senão minha filha sofreria as consequências…

– Vocês mantiveram a gravidez toda em segredo, mas ninguém tinha conhecimento da gravidez da sua mulher? Um familiar, um empregado mais próximo?

– Joana não tinha outros parentes vivos e o Senador sempre foi muito habilidoso em manter a sua privacidade. Apenas um casal idoso de empregados sabia, e eles estão cuidando de minha filha…

– Em alguma propriedade do Senador aqui por perto… – Jones deduziu.

– Sim, eu esperava conseguir chegar até ela e fugir para o México. Mas toda essa confusão do bilhete premiado acabou atrapalhando tudo. – Harper não escondia o desapontamento.

– Não passou pela sua cabeça que você seria morto no momento em que se aproximasse dessa propriedade?

– Ele deve pensar que eu enlouqueci… por isso acho que não havia mais polícia atrás de mim, apenas você e seu amigo. Ele deve temer que eu abra a boca para alguém fora do controle dele. – Harper não escondeu a ironia. – Pelo jeito ele não sabe que você chegou a investigá-lo.

– Como eu disse, eu sei com quem não me meter, a não ser que seja estritamente necessário. Olhe Harper, eu estou disposto a acreditar em você, mas você terá que confiar em mim.

– Claro, o que você poderia fazer? Atirar em mim? – Harper enxugou as lágrimas e esboçou um sorriso. O agente ignorou o comentário.

– Por enquanto você está seguro aqui. Eu vou dar uma olhada no Richardson e volto para conversarmos sobre o nosso próximo passo.

Jones se levantou e caminhou até a porta. Parou por um segundo e então virou-se para Harper.

– Quanto aquele bilhete premiado… não se preocupe, ele está em segurança.

O agente Jones então deixou Harper em seu quarto e caminhou pelos corredores do Hospital até a ala de UTIs, onde Richardson se recuperava. Ele ainda estava inconsciente, mas o médico lhe dissera que apesar do ferimento ter sido grave, ele estava estável e o prognóstico era bom. Como já era tarde da noite, apenas uma enfermeira e um médico conversavam no posto de enfermagem. Jones passou por eles, cumprimentando-os com um aceno de cabeça. Ele entrou na UTI e ficou em silêncio alguns minutos ao lado do leito do agente ferido.

Alguns minutos se passaram, e uma segunda enfermeira, diferente da que ele passara pelo corredor entrou no quarto, cumprimentando-o com um sorriso. Era muito bonita, mas Jones estava com a cabeça cheia demais para notar. Ela conferiu as medições de alguns dos equipamentos que monitoravam Richardson. Em seguida, injetou alguma medicação em seu soro e saiu. Jones nem percebeu quando ela saiu, quando se deu conta ela simplesmente não estava mais lá. O agente foi tirado de seu estado de meditação quando uma outra enfermeira, desta vez a que ele vira conversando com um médico entrou no quarto. Jones se virou para ela com curiosidade.

– Uma amiga sua acabou de sair daqui… – Disse Jones despretensiosamente.

– Uma amiga? Mas eu estou sozinha no turno de hoje…

A frase fez com que o coração de Jones parasse por um instante.

– Oh meu Deus! – A enfermeira arregalou os olhos.

Jones virou-se para a cama do amigo e viu que ele começara a convulsionar, se contorcendo na cama. Os alarmes dos aparelhos ligados a ele começaram a apitar quase que simultaneamente, alertando que o estado de saúde do agente se agravara severamente. A enfermeira rapidamente apertou um botão no interfone do quarto.

– Código azul, código azul! Tragam um carrinho de parada para cá imediatamente!

Em instantes o quarto estava repleto de enfermeiros e médicos, que tentavam salvar a vida de Richardson mais uma vez. Jones foi colocado para fora da UTI, ele se sentou em uma cadeira no corredor, desconsolado. Tinha se dado conta que toda esta história era muito maior do que imaginara. O Senador com certeza estava metido em algo muito mais sinistro que tráfico de órgãos ou atividades racistas e antissemitas.

– A enfermeira… – Sussurrou, levantando a cabeça rapidamente.

Neste momento o seu celular vibrou em seu bolso. Havia uma mensagem de texto, vindo de um número privado:

“O recado está dado. Traga Harper de volta imediatamente.”

 

Continua…

 

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