O Fugitivo – Parte 9

O Fugitivo – Parte 9

Por Daniel Rossi

– Você matou uma juíza e um agente federal! Você está louco?

O diretor do FBI Richard Spitzman estava possesso. “Dick”, como o senador gostava de chamá-lo, fez ecoar a insatisfação pelo magnífico escritório da mansão, iluminado apenas pela luminária sobre a enorme escrivaninha de madeira nobre. O senador novamente estava de pé observando o lado de fora pela janela, como em uma repetição do encontro dos dois em seu gabinete alguns dias atrás.

– É melhor você se acalmar Dick. – O Senador debochou da indignação do federal. Richard grunhiu alguma coisa ininteligível.

– Para começar, a morte da juíza, apesar de eu acreditar que tenha algo a ver com meus associados, não foi ordenada por mim. – O Senador fez uma pausa e bebeu um gole do drink que tinha nas mãos. – Segundo, posso lhe garantir que nada ligará a morte do agente Richardson a nós.

– Nada? E o maldito recado que sua gente enviou a ele por sms? O agente Jones não é estúpido Senador, e você deu de bandeja a ele uma pista.

– O agente Jones é apenas um peão no tabuleiro, Dick. Peão que deveria estar sob o seu controle, diga-se de passagem.

– Eu não entendo! Porque se dar ao trabalho de matar Richardson apenas para mandar um recado? Por que não matar o maldito Harper de uma vez e acabar com esta busca idiota por vingança.

Pela primeira vez naquela conversa o Senador alterou o tom de voz. Até agora estava de costas para Richard, mas virou-se e encarou-o de forma ameaçadora.

– Pensei já ter deixado claro que ele deve ser capturado vivo, seu verme!

Apesar da postura amedrontadora do Senador, desta vez Richard não recuou.

– E o FBI é apenas a matilha de cães de caça que você vai usar para isso, não é? – Esbravejou Richard.

– Escute bem Dick, pois eu só vou falar uma vez: Você me deve lealdade como um bom cão de caça, ou já se esqueceu dos favores que você me deve? Uma ligação minha e o seu magnífico castelo de cartas desmorona em um piscar de olhos.

Richard sentiu o ódio na voz do Senador e finalmente cedeu. Permaneceu em silêncio por alguns segundos, dando a entender ao Senador que havia compreendido o seu lugar.

– O agente Jones deverá tomar as providências para trazer Harper de volta a um presídio federal o mais rápido possível. Quero o maldito de volta ao corredor da morte, entendeu? Nem mais, nem menos.

O diretor do FBI permaneceu em silêncio. Apesar de todas as coisas estranhas que havia feito para o Senador em todos estes anos, aquilo extrapolava todas as sandices que o distinto representante do povo já havia lhe solicitado.

– Outra coisa, Dick: quero que seus homens mantenham Albert Kyrkman sob vigilância constante. Ele não deve se envolver neste caso de novo entendeu? É uma exigência dos meus associados. – O Senador deu as costas novamente ao federal.

– Ele estará bem ocupado pelos próximos meses, posso lhe garantir. – Richard balbuciou, de cabeça baixa.

– Excelente. Agora, se me der licença, tenho assuntos importantes que requerem a minha atenção. Meus homens o acompanharão até o seu carro.

Richard deu um pulo na poltrona quando percebeu os dois homens vestidos em ternos pretos, um à direita e outro à esquerda de onde estava sentado. Eles pareciam não estar ali um segundo atrás, tendo se materializado ao seu lado.

– Queira nos acompanhar, senhor. – O homem a sua esquerda colocou a mão pesada em seu ombro e Richard percebeu que o Senador falava sério quando disse que tinha outros afazeres.

– Traga-o vivo Richard. Será melhor para todos nós. – O Senador lançou mais um olhar ameaçador ao federal, que parecia agora um rapazote em meio aos dois brutamontes que o acompanhavam.

– Sim senhor. – Richard respondeu em um tom amedrontado.

Os três homens saíram pela enorme porta de madeira do escritório do Senador. Este permaneceu imóvel por alguns momentos, olhando pela janela. Viu os dois capangas acompanharem Richard até o seu carro. Ele observou o veículo se afastar da mansão em direção ao portão principal da enorme propriedade enquanto bebia mais um gole de seu drink.

Sua atenção só foi desviada quando o telefone em sua mesa tocou. O Senador repousou o copo ao lado dele e atendeu, sem pronunciar palavra nenhuma. Do outro lado da linha, a voz de seu assistente pessoal estava trêmula.

– Ligaram da Ucrânia, querem falar com o senhor o mais rápido possível.

O Senador permaneceu em silêncio. Simplesmente devolveu o telefone ao gancho. Pegou o copo e bebeu o resto de seu conteúdo em um gole único.

Permaneceu imóvel por alguns momentos, como se meditasse algo. Em seguida, caminhou até a estante de livros a sua direita. Correu o dedo indicador por alguns deles, até que ele se encontrasse sobre a lombada de um exemplar da “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Mas ao invés de puxá-lo para fora, os dedos do senador o empurraram suavemente para dentro da estante, até que pode-se se ouvir um clique.

Um das colunas da estante então soltou um rangido baixo, e começou a mover-se graciosamente para trás. Quando já estava posicionada atrás das outras prateleiras, deslizou suavemente para a esquerda, revelando uma passagem que dava acesso à uma escada. Nenhuma luz se acendeu, mas ele desceu pelos degraus rapidamente em meio a escuridão. Alguns segundos mais tarde já estava no final da escada, que dava acesso à uma espécie de cripta, iluminada por quatro velas grandes posicionadas estrategicamente nos cantos do recinto. No meio da sala, uma espécie de altar erigido em pedra se destacava, e sobre ele uma espécie de sarcófago de vidro continha o corpo de uma mulher coberto pelo que parecia ser um lençol de veludo vermelho. O rosto pálido e angelical dela contrastava com o horrendo ferimento na parte superior esquerda de sua cabeça, provavelmente causado por arma de fogo.

O Senador parou ao lado do estranho altar, e o rosto sisudo lentamente começou a ruir em uma expressão de dor. Dor esta que atingiu um ápice que prostrou o imponente homem de joelhos. Ele encostou a fronte no vidro à altura de onde a cabeça da mulher estava.

– Eu não desisti de você, filha. – Sussurrou antes de irromper em um pranto doloroso.

Continua…

No Responsesto “O Fugitivo – Parte 9”

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