Poeira de Estrelas

Poeira de Estrelas

Por Daniel Rossi

 O velho cientista repousava tranquilamente no terraço do observatório. Tivera dias agitados nas últimas duas semanas, em que vinha trabalhando até tarde, todas as noites, refazendo cálculos sobre uma descoberta recente. Trabalhava sozinho, e toda vez que a amável esposa ou um dos dois filhos tentaram lhe interromper para perguntar se precisava de alguma coisa, tinha até mesmo sido rude. Não que fosse uma má pessoa. Estava apenas enfrentando um stress enorme naqueles dias. Aquelas duas malditas semanas. Hoje, porém, sentado em uma cadeira de praia, observava o céu limpo daquela noite agradável de julho. A mente havia se esvaziado, e todo o stress daqueles dias havia subitamente sumido. Restava-lhe apenas uma pergunta na mente: por quê?

Sua tranquilidade foi interrompida, porém pelo neto de oito anos, que havia se esgueirado pelo laboratório até o terraço, enquanto os pais visitavam a esposa do velho cientista na casa que ficava em anexo. O menino brincava tranquilamente com um graveto e um pequeno formigueiro que havia em um dos cantos do terraço, ao lado de alguns vasos de plantas que o cientista se descuidara nos últimos dias, e tinham agora plantas murchas e até mesmo algumas mortas.

– Sam, o que você está fazendo? – O velho cientista levantou-se com certa dificuldade da cadeira. Havia se descuidado um pouco da saúde por causa da rotina de trabalho intenso e agora a sua lombar o estava incomodando. Pegou a bengala que repousava no chão ao lado da cadeira e caminhou, meio trôpego, até o local onde o menino brincava despreocupado. O peralta cutucava o pequeno monte de terra cheio de formigas com o graveto, e um alvoroço delas começava a brotar do chão.

– Elas são tão pequenas. Eu as estou assustando! – O menino divertia-se com o desespero das formigas em frenesi no chão a sua frente. Em sua inocência de criança, não percebia que a sua diversão estava destruindo a casa das formigas, herculeamente erigida pelos meandros do concreto armado do observatório. O cientista mesmo já havia pensado em exterminá-las, mas acabou tendo a atenção desviada por outros assuntos, e deixava sempre para depois a tarefa. Ele agora observava o menino que brincava, e achou inusitada a situação pelo contexto dos últimos dias.

– Me diga Sam, por que está fazendo isso? – O cientista acendeu um cigarro. Era um hábito que havia perdido alguns anos antes, mas que retomara como válvula de escape nos últimos dias. Deu uma longa baforada e voltou a olhar para o garoto, que o observava agora com certa apreensão, por medo de o avô ter ficado bravo com a travessura.

– É que é divertido! – O menino olhou com os olhos meio assustados. – E elas são tão pequenas que não podem fazer nada comigo!

O homem percebeu que talvez a pergunta tivesse deixado o menino um pouco assustado, por isso suavizou um pouco o tom de voz e esboçou um sorriso para tranquilizá-lo.

– O vovô não está bravo Sam. Eu só queria saber por que você resolveu mexer com as formiguinhas em primeiro lugar. – O menino voltou a observar o avô com um olhar mais tranquilo e sorriu. Olhou para a bagunça que tinha feito, espalhando a terra do formigueiro para todo lado e as formigas em pânico correndo de um lado para o outro.

– Eu… Eu não sei vovô. – O menino respondeu e deu uma gostosa gargalhada. O avô riu também, mas seus olhos marejaram. A ingenuidade do neto mostrara para ele a resposta que vinha procurando desde que suas pesquisas tinham chegado a um fim, algumas horas antes.

– Parece que é assim que as coisas funcionam afinal. – Sussurrou. O neto não entendeu o comentário do avô, e voltou a se entreter com as formigas. O que sussurrou em seguida foi mais um devaneio para si próprio.

– Não existe uma razão. Não existe um porquê. As coisas simplesmente são. Somos apenas poeira de estrelas. – Fitou o céu. O velho cientista observou o neto brincar com as formigas por mais alguns minutos. Não o deixou perceber que uma lágrima solitária lhe escorreu pelo rosto, rapidamente a limpando com um lenço que tinha no bolso da camisa.

Aí! – O menino deu um grito agudo e correu chorando até o avô. Havia sido mordido por uma das pequenas formigas, que apesar do tamanho reduzido tinham uma mandíbula poderosa.

– Parece que as pequeninas não são tão inofensivas assim não é Sam? – Consolou o menino com um afago.

– Vamos até lá embaixo para que a sua avó possa colocar uma pomada nesta picada. – Olhou para o formigueiro uma última vez. – Pelo menos vocês puderam fazer alguma coisa…

Algumas semanas depois o universo, assim como o menino que destruiu o formigueiro sem razão aparente, enviou o asteroide 53099 Samuel, assim batizado pelo seu descobridor. E ao contrário das formigas, a humanidade nada pode fazer.

Nota do autor: Agradecimentos ao Harald “Android” Stricker pelas sugestões.

2 Responsesto “Poeira de Estrelas”

  1. cebes disse:

    Opa mais um conto para acompanhar. Se seguir o padrão será mais um conto sensacional!

  2. Muito bacana este conto Daniel, parabéns. Poeira de Estrelas… é sempre revelador para um homem perceber o quanto somos insignificantes. E obrigado pela indicação Harald.

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