Promessas e Mortes

Promessas e Morte

Por Daniel Rossi

França Ocupada, Dezembro de 1943.

Seu nome era Topher McGuiness. Era um agente do MI5[bb], o serviço secreto britânico. Tinha passado poucas e boas desde que tinha sido lançado de paraquedas atrás das linhas inimigas. Porém, sua aparência e o francês perfeito o tinham tirado de várias enrascadas desde então. Sua missão o levara até aquele beco escuro. Era arriscado estar ali após o toque de recolher, mas a discrição era importante neste caso, e a luz do dia poderia facilitar tanto ele quanto o seu contato serem identificados como inimigos dos nazistas. Seu contato, a propósito, vinha caminhando tropegamente pelo mal iluminado beco onde o agente o esperava. Seu nome era Jean Michel Tissou, um escritor de contos infantis e membro da resistência francesa.

- É uma boa noite para um Cabernet Sauvignon[bb]. – Tissou pronunciou a frase de identificação.

- Prefiro peixe com fritas. – Respondeu McGuiness.

O escritor então se aproximou mais, e uma das fracas lamparinas que iluminavam o beco permitiu que McGuiness visse seu rosto. Tissou era baixinho, com o rosto gordo e com uma calvície pronunciada. Suava profusamente, o que indicava a McGuiness que apesar de membro da resistência, Tissou não era um soldado ou espião de verdade, estava ali apenas por força das circunstâncias. Ele retirou um pacote de dentro do sobretudo surrado e o segurou contra o peito.

- Eu não sei o seu nome e não te conheço. Mas preciso lhe pedir um favor. Estou lhe entregando este livro para que ele cumpra o seu propósito. Na contracapa, existem dois nomes e um endereço na Alemanha. Não sei se estarei vivo até o final disto tudo, mas gostaria que um exemplar dele, mesmo que ele nunca for publicado realmente, chegasse até este endereço. – As lágrimas escorriam pelo rosto de Tissou. O agente McGuiness não sabia, mas naquela semana a mulher e filhos de Tissou tinham morrido atropelados por um oficial alemão que havia bebido demais no seu dia de folga. McGuiness olhava meio atônito para o francês, e não entendia seu pedido, mas a forma que ele o fez o deixou desconcertado. Tissou retomou o fôlego e continuou:

- Meus filhos não tiveram a oportunidade de lê-lo. Sei que o propósito dele não tem nada a ver com entreter crianças, mas gostaria que alguma tivesse a oportunidade de tirar um pouco de fantasia destes tempos hediondos.

- Eu farei todo o possível… – O espião não tinha ideia de como iria cumprir a tal promessa, mas sentia que em frente de si havia um homem que perdera tudo por causa da guerra, e não lhe custava pelo menos tentar satisfazer o seu pedido. Tissou olhou nos olhos do espião uma última vez, e estendeu o livro embrulhado que estava segurando contra o peito. Foi neste momento que ele ouviu o estampido seco.

A bala atravessou a cabeça de Tissou. Seus olhos se arregalaram e ele soltou um som rouco e abafado pela boca antes de cair de joelhos e em seguida desabar. Graças ao seu treinamento, o espião já havia se jogado no chão e rolado. Uma segunda bala passou raspando seu ouvido esquerdo enquanto ele rolava no chão, e este agora zunia. Isso não lhe impediu de ouvir o som dos cachorros latindo e dos gritos dos soldados alemães que se aproximavam da entrada do beco. Escondeu-se atrás de uma coluna e conseguiu ver a motocicleta que usara para chegar até ali do outro lado do beco. Entre eles, o corpo de Tissou. Menos de dez segundos se passaram entre o tiro e o movimento desesperado do espião. Rolou em direção ao corpo de Tissou, e com um movimento rápido, colocou o de lado, usando-o como escudo. Sentiu mais pelo menos duas balas entrarem no corpo do francês antes que conseguisse chegar até a moto.

Sabia que o final do beco era fechado, mas havia um estreito corredor onde ele poderia passar com a moto. Era a rota de fuga que havia planejado para o caso de algo errado acontecer. E as coisas não poderiam estar dando mais errado. Acelerou a moto e a fez girar sobre o pneu dianteiro e saiu em louca disparada. As balas alemãs zuniam ao seu redor, e ele quase caiu da moto quando uma acertou de raspão o seu braço esquerdo. A dor no braço era forte, mas ele conseguiu passar pelo estreito corredor e sair na rua contrária ao que a patrulha alemã que o perseguia. Porém, seus olhos se arregalaram quando viu que a rua estava cheia de nazistas. Precisava desesperadamente encontrar um esconderijo, um lugar que pudesse se esconder até que pudesse mudar de aparência e entrar em contato com a Resistência Francesa[bb].

Havia cerca de quinze nazistas o perseguindo a pé, vindo pela abertura de onde emergira do beco. Na rua a sua direita havia dois veículos com três soldados em cada um. Do outro lado, duas motos com sidecar já vinha sua direção, com os soldados atirando. Acelerou a moto em direção ao único lugar que poderia usar como rota de fuga naquela situação: um pequeno beco à frente.  Se houvesse nazistas ali estaria perdido, mas não tinha muita escolha. Acelerou a moto e investiu em direção ao beco. Os nazistas atônitos tentaram segui-lo, mas apenas as duas motos com sidecar conseguiram se aventurar pelo beco, parcialmente bloqueado com entulho e caixas empilhadas. Seguiam atirando atrás do espião, que ziguezagueava freneticamente tentando desviar dos tiros.

Quando já estava quase perdendo as esperanças de escapar com vida, sentiu a moto dar um leve solavanco, com se passasse por alguma coisa estendida no asfalto. Quando olhou para trás, viu que havia uma corda esticada na extensão da rua, na altura do pescoço dos motociclistas nazistas. O solavanco foi tão forte que eles foram jogados vários metros para trás, enquanto membros das Resistência emergiam as ruelas laterais e metralhavam os ocupantes do sidecar.  Mais a frente, um caminhão de carroceria fechada esperava com o motor ligado e com uma pequena rampa na parte traseira, por onde ele subiu com a moto. Jogou-a no assoalho da carroceria e desabou no chão. O coração parecia querer lhe sair pela boca, e ele demorou alguns minutos para recompor-se. Foi quando ele desembrulhou o pacote que Tissou o entregara. O livro infantil tinha um buraco de bala no seu canto inferior esquerdo, mas fora isso estava apenas um pouco amassado.  Leu na contracapa os nomes e o endereço na Alemanha. Tinha em suas mãos agora o último pedido deste homem, um verdadeiro herói de guerra.

One Responseto “Promessas e Mortes”

  1. Bernardo Cury disse:

    Tissou está morto??!?!!!?!?!??! NOOOOOOOO!!!

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