Saída Diplomática

Saída Diplomática 

Salão Oval – Casa Branca
Washington DC

O centro nervoso do poder americano estava agitado naqueles dias. As tensões entre o governo americano e seus rivais asiáticos haviam chegado a uma situação insustentável, como não se via desde os tempos mais sombrios da Guerra Fria. Porém, o que pesava mais sobre os ombros do homem mais poderoso do mundo neste exato momento não eram os delírios de poder de um déspota qualquer que arranjara uma desculpa qualquer para iniciar a Terceira Guerra Mundial. Sentado em sua mesa, tentava concentrar-se nos papéis espalhados a sua frente, mas toda vez que conseguia se concentrar por alguns parágrafos a lembrança do compromisso que teria dali algumas horas retornava para assombrá-lo. Divagava nestes pensamentos quando ouviu baterem a porta.

– Senhor, ele está aqui. – O Secretário de Estado em pessoa anunciava o visitante que o presidente aguardava, o que o deixou apenas mais nervoso do que já estava.

O presidente nada respondeu de imediato. Organizou a papelada sobre a mesa e então levou a mão ao rosto, apertando os olhos com o indicador e o polegar. Soltou um leve suspiro. Voltou seu olhar novamente para seu Secretário. Este aguardava ansiosamente por uma resposta. Ela veio na forma de um aceno de cabeça, que foi compreendido como a permissão para que o visitante fosse trazido a sua presença. A porta se fechou brevemente e voltou a se abrir alguns segundos depois. O homem alto e magro, vestido com um alinhadíssimo terno preto entrou na sala. Tinha um chapéu da mesma cor do terno na cabeça, o que lhe dava a aparência de um senhor respeitável dos anos cinquenta do século passado.

– Boa tarrde, senhorr prresidente. – O homem cumprimentou o mandatário com um leve sorriso. Seu sotaque era carregadíssimo, e lembrava a pronúncia de um alemão ou de algum país do leste europeu. Ele retirou o chapéu, o que revelou a sua cabeça totalmente calva. Sua pele enrugada e pálida, com uma leve coloração cinza, dava ao rosto magro uma aparência quase cadavérica.

– É um prazer conhecê-lo. – O presidente estendeu o cumprimento de forma burocrática, quase protocolar. Sentiu a mão gélida do visitante apertar a sua. O presidente lhe indicou uma cadeira e voltou a sentar em sua poltrona.

– Acrredito que a senhorr saiba porr que eu estou aqui. – O visitante iniciou a conversa. O presidente fitou o rosto inexpressivo e respondeu:

– Eu creio que sim. Quando recebi a mensagem que você viria até aqui, imaginei qual seria o motivo.

– Os tensões estão aumentando senhorr Prresidente. Não são mais brravatas. Estamos na limiar de um guerrra nuclearr. A senhorr está ciente dos implicações que isto terrá em nosso acorrdo.

O presidente ficou calado por alguns segundos, tentando organizar as ideias.

– Você não pode esperar que nos responsabilizemos pelos atos de um tirano enlouquecido. Nós estamos cumprindo a nossa parte do acordo.

– O liberaçom de materrial rradioativo no atmosferra, mesmo em quantidades mínimas, serria catastrrófico parra nós nesta momento. Concorrdamos em não interrferirr em suas assuntos diplomáticas, mas se o senhorr não se mostrrarr capaz de lidarr com esta situaçom como seus antecessorres lidarram na passado, serremos obrigados a tomarrmos atitudes drrásticas. Devo lembrrarr-lhe que favorrecemos o seu naçom porrque vocês se provarram serr as mais capazes em trratarr destas assuntos delicados.

O presidente engoliu em seco. Sabia o poder que estava representado ali e que vidas estariam em jogo. Porém estava encurralado.

– Você não entende. A situação aqui é diferente da com os russos. Mas posso lhe garantir que estamos fazendo tudo ao nosso alcance…

– Eu não sou a sua eleitorrado Prresidente. A senhor tem quarrenta e oito horras.

O ultimato surpreendeu o político. Em momento algum de sua gestão havia sido colocado contra a parede daquela forma. Ficou sem resposta.

– Ok. – Respondeu balançando de leve a cabeça.

O estranho visitante levantou-se e andou a até a porta. Colocou o chapéu de volta na cabeça e antes de girar a maçaneta para sair da sala, fez um último lembrete.

– Quarrenta e oito horras. –A estranha figura saiu da sala e começou imediatamente a ser acompanhada por quatro agentes do serviço secreto. Eles os acompanharam até um helicóptero que o aguardava do lado de fora. Os quatros ficaram intrigados quando observaram que o transporte aparentemente desapareceu alguns segundos depois de se afastar da Casa Branca. Acabaram concluindo que fora o efeito do sol forte daquela manhã e voltaram aos seus postos.

Dentro da Casa Branca o presidente convocava agora os seus secretários e diplomatas para reuniões com o intuito de chegar a uma solução ao impasse que o colocara em xeque. Estes esforços, porém, se mostraram inconclusivos. As quarenta e oito horas seguintes apenas serviram para que o estado de tensão crescesse ainda mais, tornando iminente o lançamento de ataques nucleares entre as nações envolvidas.

Foi então que, aparentemente, uma solução inesperada aconteceu. Um terremoto de proporções continentais abalou o país asiático hostil. O epicentro, localizado praticamente abaixo de uma das principais bases de mísseis do país, fez com o que o chão praticamente engolisse o arsenal inimigo. Porém as perdas não foram apenas militares. Cidades inteiras acabaram atingidas pela calamidade. Havia milhões de vítimas, e a cada boletim de notícias este número era acrescentado em milhares.

Ao presidente, sozinho no Salão Oval, restou apenas chorar.

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