Saída Diplomática – Conclusão

Saída Diplomática – Conclusão

Por Daniel Rossi

Pouco mais de um ano havia se passado desde a reunião do diplomata Herbert Herrmann com os representantes de Argol. Estava de volta a Estação Espacial Internacional, mas desta vez flutuava em um de seus compartimentos. Desde que os antarianos haviam “desligado” todas as tecnologias que haviam compartilhado com os humanos, incluída aí o sistema de gravidade artificial da estação, esta vinha operando precariamente. A ação, tomada em retaliação à aliança entre a Terra e Argol havia regredido alguns setores da sociedade humana em décadas. Muita coisa havia sido substituída por tecnologias desenvolvidas pelos próprios terráqueos, mas algumas tecnologias de ponta ainda careciam de tempo para serem substituídas. Os argolianos prontamente se ofereceram para substituir algumas delas, principalmente as que não tinham propósito bélico. Era para isso que o diplomata estava de volta a Estação, como representante escolhido pelos argolianos para tratar destes assuntos.

Os antarianos por sua vez haviam partido, inibidos pelo posicionamento argoliano e de outras civilizações amigas destes em relação à forma como eles haviam agredido a arcaica civilização terrestre. Um armistício havia sido estabelecido, e a Terra ficaria sob a proteção de uma “associação” formada por estas raças. Porém, o preço desta proteção havia sido debatido exaustivamente entre os humanos, representados pelo diplomata alemão, e as raças extraterrenas. E era para o fechamento destas negociações que Herrmann estava de volta ao espaço, flutuando agora em um compartimento mal iluminado, esperando pela chegada dos representantes alienígenas. A existência deles não havia sido revelada a toda a população da Terra, apenas a alguns líderes mais importantes, mas o anúncio de tudo o que ocorrera durante aquele ano seria levado ao público finalmente. Era isso que se passava pela cabeça de Herrmann no momento em que o comandante da estação entrou no compartimento.

– Precisando de alguma coisa Senhor Herrmann? – O Comandante Rogers e o diplomata tinha se tornado amigos durante os longos períodos que Herbert havia estado na E.E.I. como seu “hóspede”.

– Não comandante. Tudo sob controle na medida do possível. – A voz do alemão era baixa e a expressão em seu rosto deixava transparecer preocupação.

– Aconteceu alguma coisa? O senhor parece preocupado. – Perguntou Rogers.

O diplomata olhou para o rosto do comandante e se deu conta que não adiantaria mentir. O militar era astuto e o conhecia bem o suficiente agora para perceber que alguma coisa estava errada.

– Feche a porta para podermos falar com mais privacidade. – Rogers seguiu a instrução de Herbert e trancou a porta do compartimento onde estavam. Olhou em seguida para o alemão, que o observava com o rosto tenso e cansado. Rogers permaneceu em silêncio, aguardando que Herbert falasse.

– O senhor está ciente de minhas negociações com as raças extraterrestres, não é comandante?

O militar anuiu com a cabeça.

– Sim, na verdade estou empolgado. Sempre fui a favor de revelar a existência destas raças a toda à humanidade.

– Sim… – Herbert fez uma pausa. – Mas o senhor não conhece toda a extensão das consequências desta revelação, comandante.

O militar fitou o diplomata com apreensão. Sabia que na Terra havia boatos constantes da presença de alienígenas por causa dos acontecimentos bizarros durante aquele ano. A revelação formal era aguardada apenas como confirmação das especulações levantadas por vários setores da sociedade. Portanto não entendia a apreensão exagerada de Herbert. Flutuou para mais perto dele e indagou:

– O senhor tem receio que a revelação cause pânico? Pelo que ouvi todos “lá embaixo” já estão esperando por isso…

– Sim, de fato. Não é a revelação de nossos novos amigos que me preocupa. O senhor está ciente que fui levado até Argol, não é?

– Como eu não saberia? Todos no programa espacial ficaram morrendo de inveja. – O militar sorriu. A expressão de Herbert, porém não se alterou. Ele então continuou.

– Pois bem, quando estive lá fui colocado em contato com a “consciência coletiva” deles. Foi-me permitido ver e ouvir todo o incrível conhecimento que aquela raça possui sobre a Terra e sobre nós… – Fez uma pausa, pensativo, e então continuou. – O senhor já se odiou por estar certo alguma vez?

– Não que eu me lembre, Senhor Herrmann.

– Pois bem, eu estou me odiando agora…

O militar lhe lançou um olhar de interrogação. De fato, não compreendia aonde o diplomata queria chegar com aquela conversa. Percebendo a confusão de Rogers, Herbert continuou.

– Talvez o senhor não saiba, mas eu sou um ateu, comandante. Sempre baseei minhas convicções na razão. Porém, em minhas viagens pelo mundo sempre me interessei em conhecer os fundamentos teológicos das culturas que mantive contato. Era uma ferramenta importante na mesa de negociações. Admito que por vezes me senti compelido a acreditar em algumas delas, mas consegui resistir. – O diplomata esboçou um sorriso sem humor algum.

– Eu não estou compreendendo onde o senhor está querendo chegar. – O comandante estava sério agora, preocupado com o rumo que a conversa estava tomando.

– O que me preocupa comandante, não é revelar ao mundo a existência de seres extraterrestres. Como exigência para a proteção da Terra contra os ataques antarianos, fomos obrigados a concordar em revelar uma gama enorme de conhecimentos e compartilhá-los com toda a raça humana.

– Não vejo como isso pode ser uma coisa negativa, Senhor Herrmann.

– E se eu lhe dissesse comandante, que toda e qualquer manifestação sobrenatural na qual as religiões terrestres estão baseadas foram fruto da intervenção de uma ou outra raça destes seres? Desde os deuses retratados em pinturas rupestres nas cavernas até os que incitam os radicais religiosos que se explodem em nome deles. Desde que o ser humano caminha sobre a terra, estas raças evoluídas conduzem a nossa evolução de uma forma ou de outra. Agora terei que revelar isto também, como exigência pela proteção delas.

O astronauta estava atônito. Mesmo ele, que era um fiel não praticante e às vezes relutante, percebeu a gravidade dos fatos que o diplomata estava a ponto de revelar mundialmente.

– Parece que todo este tempo eu estive certo comandante. – Os olhos do alemão estavam marejados agora. – Foi a minha benção e agora é a minha maldição. Serei um porta-voz da revelação, ou chame de apocalipse se quiser. E para ele não haverá saída diplomática.

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