Saída Diplomática – parte 2

Saída Diplomática

Parte 2

Por Daniel Rossi

Alguns dias antes.

A Estação Espacial Internacional cumpria o seu bailado habitual, orbitando a pequena esfera azul como já fazia há tempos. Estava quase no final de sua vida útil, mas esforços estavam sendo feitos na Terra para estender a sua permanência, dada a importância que havia alcançado tanto científica como diplomaticamente.

Dentro de um de seus módulos, o velho alemão, o astronauta mais improvável de todo o programa espacial, aproveitava agora alguns minutos de folga. Coincidentemente naquele horário a EEI estava passando sobre a Europa, e ele vislumbrou a sua terra natal pela pequena janela. Como era noite naquele hemisfério, identificou as luzes acesas que desfraldavam um manto de pequenos pontos luminosos sobre sua pátria.

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Porém, algo peculiar lhe chamou a atenção. Quase uma divisão perfeita, a tonalidade das luzes variavam no que seriam os antigos blocos capitalista e socialista. As do leste eram de tonalidades mais alaranjadas, menos vivas que a do bloco capitalista. Relembrou por alguns momentos como aquela divisão havia impactado em sua infância. Recordou com carinho do tio Klaus, que só conhecera pessoalmente quando o infame muro caiu. Vivera toda a infância do lado capitalista do muro, mas a família havia sido separada por décadas pelas diferenças políticas e ideológicas de seus governantes. “Que ironia” pensou em silêncio. Estava ali exatamente agora para tentar unir dois povos que não poderiam ser mais diferentes.

Desviou os olhos por um momento e observou o tablet sobre a mesa a sua frente. Revisou alguns documentos confidenciais que trazia consigo. Repassou detalhes de sua missão na cabeça. Porém, a visão pela pequena janela o fazia a todo o momento perder a atenção. Registrou a imagem com a câmera do aparelho. Aquilo o inspirara. Acreditava agora com mais afinco ainda que as diferenças devessem ser deixadas de lado pelo bem maior, e que a humanidade deveria aprender com os erros do passado a aceitar todos que eram de uma forma ou de outra diferentes. Mas este pensamento lhe causou medo.

Pela primeira vez se deu conta do impacto religioso e social que a missão da qual fazia parte agora teria em um mundo já tão atribulado. Crenças teriam que ser revistas, doutrinas inteiras talvez perdessem sentido. Seu trabalho ali ganhou ainda mais importância em sua cabeça.

Ateu, não havia se preocupado com este aspecto até este momento. A sua fé inexistente o ajudara no passado a contornar intricados imbróglios diplomáticos. A falta de uma inclinação religiosa tinha sido determinante para ele aceitar e fazer com que outros aceitassem que se podia acreditar em coisas diferentes e mesmo assim conviver em paz. Costurara acordos em diversas partes do mundo, reunindo em mesas de negociação inimigos históricos. Esta habilidade inclusive lhe havia premiado com um Nobel da Paz.

“Só deles não terem enviados os militares para esta conversa pode ser considerado um avanço” pensou e soltou um pequeno sorriso.

Porém suas divagações foram interrompidas quando percebeu uma luz intensa passar em uma velocidade impressionante pela pequena escotilha de onde vislumbrara a Terra. Apressou-se em recolher os poucos pertences e guardá-los em uma pequena bolsa. Alguns minutos depois, a porta do apertado módulo se abriu e o comandante da Estação entrou.

– Eles estão aqui, Senhor Kruger.

O alemão se levantou rapidamente e quase perdeu o equilíbrio. Ainda não havia se acostumado a pouca gravidade da Estação. Recompôs-se e olhou para o Comandante com confiança.

– Chegou a hora. – Sussurrou no que parecia um comentário para o Comandante, mas na verdade o fizera para si mesmo.

Os dois homens caminharam em silêncio por um corredor que levava a um salão que havia sido acoplado recentemente a Estação, especialmente para aquela ocasião. Os dois pararam em frente à escotilha e o Comandante colocou a mão no ombro do diplomata.

– Boa sorte senhor. – Ele sorriu e se colocou de lado.

– Obrigado comandante. – Fez um leve aceno com a cabeça.

Em seguida digitou seu código de acesso em um pequeno teclado numérico ao lado da escotilha. Esta se abriu imediatamente, e o ambiente preparado para receber seus interlocutores se revelou. O alemão entrou lentamente e viu os três seres posicionados no fundo da sala, acomodados em poltronas construídas especialmente para eles. As três formas ergueram os longos braços quase que simultaneamente, com as mãos abertas como em um aceno.

O diplomata imitou o movimento e sorriu.

– Bem vindos!

Fonte: http://thefabweb.com/81991/30-best-city-pictures-of-the-week-feb-17th-to-feb-23rd-2013/attachment/82025/

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