Saída Diplomática – Parte 3

Saída Diplomática – Parte 3

Por Daniel Rossi

Um dos seres, que estava posicionado ao centro, emitiu um som agudo, parecido com um uivo. O diplomata teve um pequeno sobressalto, assustado com o som. O extraterrestre cessou-o imediatamente, e levou o longo braço até um dispositivo que pendia de seu pescoço. Os longos dedos tocaram o dispositivo, e uma pequena luz se acendeu nele. O extraterreno então se voltou novamente para o homem que o observava atônito.

– Desculpe, creio que agora você pode me entender. – O uivo esganiçado deu lugar a uma voz suave e pausada.

– Sim, assim é bem melhor. – O velho diplomata sorriu. – Meu nome é Herbert Herrmann.

– Eu sou Kar, e estes são meus irmãos Mir e Zor. Mas deixemos as formalidades de lado. Percebo que seu sobrenome significa guerreiro em seu idioma natal, mas acredito que é paz que você vem nos pedir.

Herbert ficou surpreso com o conhecimento de alemão do alienígena, mas percebeu que eles queriam ir logo ao que interessava.

– Eu acredito que vocês já devam estar cientes da nossa situação com os Antarianos.  Nossos conflitos domésticos terráqueos estão interferindo em nossa relação com eles, e temo que ela possa se deteriorar a ponto de que possa haver… Hostilidade. – O alemão escolhia com cuidado as palavras. Os três seres o observavam, impassíveis. Como eles não esboçaram reação, ele resolveu continuar.

– Nós precisamos da ajuda de vocês para intermediar esta situação. Temo que ela possa sair do controle.

O extraterrestre observou o humano a sua frente por alguns instantes. Herrmann sabia que os três seres deveriam estar confabulando telepaticamente, por isso aguardou em silêncio. Kar então se pronunciou.

– Como o senhor deve saber, meu planeta se ofereceu para ser parceiro de vocês no passado. Mas o que oferecemos em troca da extração dos recursos que precisávamos não os interessou. Vocês preferiram as tecnologias bélicas dos Antarianos. Nós respeitamos a sua vontade e nos retiramos. Por que deveríamos intervir agora?

O humano ficou incomodado com o questionamento. Tinha conhecimento que o planeta dos extraterrestres, chamado pelos poucos humanos que o conheciam como Argol, havia oferecido tecnologias em várias áreas do conhecimento para os humanos. Porém os líderes das principais nações envolvidas nos acordos preferiram as armas antarianas a avanços em biotecnologia ou comunicações. Desde então essas nações passaram a permitir que os Antarianos retirassem um elemento presente na atmosfera do planeta chamado trilídio. Ele era desconhecido para os humanos, mas era utilizado tanto por antarianos como argolianos como combustível para suas naves. Porém ele era extremamente comprometido com a liberação de radiação na atmosfera, o que causava toda a apreensão dos Antarianos com uma possível guerra nuclear na Terra. Herrmann pensou por um instante e respondeu.

– Justamente pelo seu posicionamento no passado que acreditamos que vocês poderiam ajudar agora. Tanto que seu pedido de não se encontrar com nenhum representante militar de meu planeta foi prontamente atendido. Compreenda: os antarianos têm recursos para deflagrar catástrofes inimagináveis no nosso planeta. Nossa posição passou de parceiro comercial a refém deles.

Os argolianos permaneceram em silêncio novamente, confabulando em suas mentes. Kar então falou.

– Vocês estariam dispostos a expor o conhecimento de nossa existência e dos antarianos para toda a sua raça? Esse foi um dos motivos de não termos estabelecidos uma aliança no passado. Se vamos beneficiar a sua raça de alguma forma, este benefício tem que se estender a todos.

Herbert engoliu em seco. Dentre tudo o que havia sido discutido entre os líderes terrestres como concessões aos argolianos, o segredo sobre a existência deles era um ponto inflexível. Mesmo com a ameaça iminente, o pequeno grupo de nações que negociavam com os extraterrestres, que envolviam os Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, não queria ter que dividir os benefícios alcançados com outros países.

– Acho que revelar toda a verdade agora apenas causaria pânico entre a população terrestre… – Tentou contornar Herrmann.

– Seremos inflexíveis com isso como fomos no passado Herbert. – Kar retrucou.

O diplomata tirou os óculos de lentes pesadas e os limpou com um lenço. O gesto era um cacoete que adquirira e se manifestava quando era colocado em uma posição de pressão. Era quase que uma resposta automática de seu corpo. Fazia isso com o objetivo de ganhar alguns segundos para sua afiada mente agir. Desta vez, porém, não conseguia chegar à conclusão alguma. Mas ainda tinha uma última carta na manga.

– Ok, eu entendo. Mas antes que deixemos a mesa de negociações, permitam que eu lhes mostre mais uma coisa.

O diplomata então se levantou e caminhou até uma pequena mesa em um dos cantos do recinto. Abriu uma gaveta e retirou três grandes placas de acetato. Nelas haviam fotos tiradas pelo satélite Hubble. Dispôs as três diante dos três seres.

– Estas fotos foram tiradas há quatro dias terrestres atrás por um dos nossos satélites. Elas mostram o que parece ser uma armada de naves argolianas posicionadas bem além da zona de exclusão do cinturão de Órion. O que me leva a crer que a ânsia desenfreada por trilídio e a preocupação exacerbada com um conflito doméstico terrestre é na verdade por causa de um ataque em larga escala contra Argol.

Os extraterrestres nem precisaram utilizar a telepatia. Pela primeira vez desde o início da conversa, se entreolharam com os grandes olhos negros. Herrmann continuou seu discurso.

– Isto me leva a crer que os antarianos muito em breve não serão apenas inimigos da Terra. Creio que foi um lance de sorte o sistema de camuflagem deles não estar preparado para uma tecnologia tão ultrapassada como a nossa. – Parecia haver satisfação na voz do diplomata. Acreditava que sua estratégia de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” funcionaria aqui. Continuou:

– Podemos interromper o fornecimento aos antarianos, o que acredito que preveniria uma ataque direto a Argol. Mas acredito também que isso certamente os fará virar sua armada na nossa direção e precisaremos de proteção.

– Entendo aonde você quer chegar. Mas devo lembrar-lhe que segundo as nossas leis, nós não podemos ser os agressores em um conflito, Herbert. – Kar argumentou.

– Mas vocês poderão intervir caso uma raça amiga seja atacada, não? – O alemão achou irônico que essa desculpa se aplicasse a esta situação, sendo que ela já havia sido usada tanto na própria Terra.

– Sim. Encararemos o fato do corte do suprimento de trilídio aos antarianos como um sinal de aliança entre a Terra e Argol. E se os antarianos retaliarem, estaremos prontos a intervir.

– Acho que temos um acordo. – Herrmann aceitou. Não era a melhor saída, mas pelo menos conseguira alguma ajuda. Indagou-se em silêncio em que ponto o acordo com os antarianos tivera desandado, e como a humanidade podia estar refém em seu próprio planeta. Saudou os três seres novamente com o cumprimento com a mão espalmada e se despediu.

O corte de suprimento de trilídio foi feito, mas a retaliação antariana veio antes dele. Com a crescente tensão e o iminente lançamento de armas nucleares, o que seria catastrófico para os planos antarianos, estes interviram chacoalhando a Ásia com um terrível terremoto. O ataque foi a deixa para que os argolianos enviassem uma frota de cruzadores para intervir em favor da nova raça aliada, conforme a sua lei pregava.

Uma guerra estava declarada e a Terra seria o campo de batalha.

 

Parte 1: http://paranerdia.com.br/textos/cronicas/saida-diplomatica

Parte 2: http://paranerdia.com.br/textos/cronicas/saida-diplomatica-parte-2

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