Vida Extra – Fase 1

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Vida Extra

Fase 1 – Com os próprios punhos

Por Daniel Rossi

Caminhava há horas. Após os estranhos acontecimentos dos raios lhe perseguindo, acordara se sentindo melhor, mais forte. Aparentemente aquela experiência o fortalecera de alguma forma, ou no mínimo permitira a ele prosseguir na sua jornada. Lembrava-se que antes estava se sentindo extremamente fraco, mas agora parecia estar com a vitalidade recuperada. Achava estranho que apesar de todo aquele tempo ter passado, ainda era noite. Teria dormido um dia inteiro? A única certeza que possuía era que estava chegando ao primeiro local indicado no mapa que Samael o havia lhe dado. Tinha resolvido entrar de cabeça na busca pela joia da Consciência, seja ela o que for. Podia ver as luzes do que parecia ser uma grande cidade à frente. Surpreendeu-se quando percebeu que a cidade destoava completamente daquele cenário deserto. Começava do nada. Um passo atrás estava pisando naquele terreno vermelho e arenoso, um passo a frente, já estava no asfalto da cidade.

Fazia-lhe menos sentido ainda se tratar de uma cidade moderna, com prédios e arranha-céus. Até então estava preso no que parecia ser um mundo medieval, com magos e espadas, e agora estava no coração de uma grande metrópole. Mas apesar  da aparência e de haver luzes nos prédios e carros estacionados, as ruas estavam completamente desertas. Resolveu avançar alguns quarteirões, e o único som que ouvia era o do vento. Virou por uma esquina e viu um homem, o primeiro ser humano além de Samael que encontrara até então. Ele vestia uma roupa que parecia ter saído de algum filme de gangues dos anos 70, e veio voando de costas em sua direção. Esquivou-se rapidamente, e viu o homem se estatelar contra a parede atrás de si. A pancada foi tão forte que quando caiu, uma marca do corpo ficou impressa no cimento. Levantou os olhos e percebeu que ele tinha sido arremessado por um homem negro, de quase dois metros de altura e forte como um lutador de luta livre. Percebeu que, ao redor do gigante, vários homens vestidos como aquele que viera voando em sua direção estavam no chão, nocauteados. Os homens deviam vir de várias famílias de gêmeos, pois existiam ali uns três ou quatro tipos de pessoas e, dentro destes grupos, eram totalmente iguais entre si.

O gigante estava vestido com uma calça militar e coturno e uma regata camuflada, o que lhe dava a aparência de um astro de ação dos anos 80. Ele voltou o seu olhar para Gabriel e começou a caminhar em sua direção. Aterrorizado, Gabriel só conseguiu dar um passo para trás, colocando as costas contra a parede, de onde o reboco ainda caia por causa do pobre que havia sido arremessado. Tentou desembainhar a espada, mas ela estranhamente parecia presa na bainha e não saía de jeito nenhum. O gigante foi se aproximando cada vez mais, e Gabriel sentiu o suor lhe escorrer pela têmpora. Quando o grandalhão chegou exatamente a sua frente, fechou os olhos e esperou pelo pior. A parede de músculos se abaixou e o abraçou, sorrindo.

– Até que enfim você está aqui! – o sorriso preenchia o rosto largo, emoldurado pela cabeleira cheia de dread locks. – Pensei que Samael tivesse se esquecido de nós!

Gabriel atônito tentava entender a razão de ser tão festejado pelo grandalhão, mas acabou concluindo que era melhor do que ser massacrado por ele.

– Meu nome é Holgar. Eu e meus amigos estamos tentando limpar as ruas da cidade dessa escória. – apontou para os homens nocauteados no chão, os estranhos gêmeos, que gemiam e reclamavam por causa da surra que haviam recebido. Neste momento escutaram o som de vidro se quebrando.

– Venha, eles devem estar precisando de ajuda. – correram em direção a um beco de onde o barulho viera, e Gabriel só se deu conta no meio do caminho de que absolutamente não sabia brigar. O que faria ele para ajudar em um quebra-pau no meio da rua?

Quando os dois emergiram do beco, eles avistaram um rapaz forte, porém bem menor que Holgar e uma moça brigando com o que pareciam ser mais daqueles três ou quatro tipos de gêmeos que ele vira antes. Havia dezenas deles, mas os dois estavam se saindo bem, nocauteando um atrás do outro. Holgar entrou na briga também, pegando dois dos “punks” pela cabeça e batendo-as uma contra a outra. Gabriel estava num canto observando tudo, mas subitamente se viu cercado por três inimigos. O primeiro avançou em sua direção e tentou lhe acertar um soco, mas Gabriel se esquivou como um verdadeiro artista marcial, emendando um soco no estômago que fez o capanga cair se contorcendo no chão. Os outros dois o atacaram, mas foram imediatamente rechaçados com socos e chutes que Gabriel não fazia ideia de onde tinha tirado. Quando os três já estavam no chão, ele apenas conseguiu balbuciar, atônito.

– Eu sei Kung Fu…

Holgar olhou para ele e sorriu, fazendo um sinal de positivo com uma mão enquanto segurava outro inimigo pela cabeça com a outra. Os outros dois amigos de Holgar também olharam para ele sorrindo, mas Gabriel ficou mesmo hipnotizado pela moça que lutava ferozmente, mas que lhe parecia incrivelmente bonita e estranhamente familiar. Seu estado de encantamento foi bruscamente interrompido por um soco de um capanga, e ele voltou a lutar, desta vez mais confiante do que antes, pois parecia ter aprendido magicamente como o fazer. Havia tantos inimigos que a luta se estendeu por longos minutos, até que todos os “membros de gangue” tivessem sido postos para dormir. Gabriel percebeu que os nocauteados há mais tempo iam desaparecendo. Aquilo deu um nó em seu cérebro, mas no calor da luta, não teve tempo para pensar sobre aquilo. Quando o perigo havia passado, Holgar e os outros dois vieram em sua direção. O rapaz foi o primeiro a lhe estender a mão.

– Você deve ser Gabriel… Eu sou Billy e esta é a… – antes que Billy pudesse terminar a frase, a garota se jogou nos braços de Gabriel, lhe dando um beijo cinematográfico.

– Kim Li… – Billy surpreso só balbuciou o nome da amiga.

– Por que você demorou tanto? – Kim Li estava abraçada a Gabriel agora. Ele não estava entendendo nada, mas aquela garota lhe parecia extremamente familiar, e o beijo tinha desencadeado uma sequência de flashes em sua cabeça, onde via a ele próprio e a garota em várias situações. Ela o olhava nos olhos agora, e uma lágrima começou a escorrer. Parecia que ela o conhecia há muito tempo, e sentira a sua falta. Dentre todas as experiências estranhas que havia vivido até aquele momento, esta sem dúvida superava a todas, pois ele se sentia conectado aquela mulher, e as lembranças, mesmo desconexas em sua mente, o faziam querer estar ali com ela também.

– Você tem que voltar para mim entendeu? Você tem que voltar para mim!

A última frase ecoou na cabeça de Gabriel, e ele sentiu o corpo pesar. Sua visão começou a ficar turva, e todos à sua volta começaram a recuar, mesmo que sem se mover. Queria manter a consciência, mas esta parecia lhe escapar por entre os dedos.

– Você tem que voltar para mim! – a voz de Kim Li parecia cada vez mais distante. Ele continuou ouvindo-a, cada vez mais fraca, até que só houve silêncio, e a visão turva deu lugar à escuridão. Havia apagado novamente.

Fim da Fase 1

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