Vinte e Sete

Vinte e sete

 Por Daniel Rossi

 Do diário de Michael J. Thompson

 15 de janeiro de 2013

 “Ela faria setenta anos hoje, vovô. Engraçado que me dei conta de várias coisas por causa disso. Já estou com quarenta e três anos. Não que isso tenha me deixado cansado ou coisa assim. Acho que é o espírito dela, vovô. Acho que ela está sempre aqui, até mesmo quando pego este caderno para conversar com o senhor. Às vezes até enxergo ela de relance no espelho. Ela está sempre vestida como naquela foto que o senhor costumava me mostrar. E ela sempre tem flores no cabelo.

Dei-me conta também que ela já não sorri mais como antes vovô. “Faz pouco tempo que mandei a cadela de cabelo engraçado para o inferno, mas parece que não foi o suficiente.”

 23 de janeiro de 2013

 “Eu vi ela hoje vovô. Ela estava no espelho de novo. O sorriso se foi. Eu tenho que achar alguém. Desde 94, quando eu estourei a cabeça daquele maldito viciado em heroína de Seattle, foi difícil encontrar alguém que a deixaria feliz como o senhor fez. O senhor teve os “três grandes jotas”. Eu nunca vou conseguir superar isso. E eu tenho medo vovô. Por mais que o senhor tenha me ensinado, eu nunca fui da C.I.A. como você.”

 01 de fevereiro de 2013

 “Estava mexendo em umas caixas velhas hoje e encontrei as coisas da mamãe. A seringa, a colher enferrujada, o isqueiro. Por que ela fez isso vovô? Mas eu sei que a culpa não foi dela. É culpa deles, sempre foi. Malditos palhaços de circo, eles vão pagar. Eles não viverão mais do que ela viveu.”

 03 de fevereiro de 2013

 “Chorando. Eu podia escutar ela soluçar. Mas eu acho que encontrei alguém vovô. Mas ela não tem a idade certa ainda. Terei que esperar até março, vovô. Não sei se vou aguentar.”

 05 de fevereiro de 2013

 “Fiz uma coisa que vai deixar o senhor desapontado vovô… Eu usei as coisas da mamãe. Eu precisava saber a sensação entende? Comprei um pouco com o cara que fica no beco perto do trabalho. Eu tinha que saber por que ela preferiu este veneno a nós vovô. Ela gritava dentro do espelho e eu perdi o controle e o quebrei. Fiz um corte bem feio na minha mão. A enfermeira do hospital me olhou engraçado. Acho que ela percebeu que não tenho impressões digitais nas pontas dos dedos. Eu fiquei com tanto medo. Não vi mais a mamãe…”

 12 de fevereiro de 2013

 “Este mês maldito que não passa logo. Tenho que esperar até 28 de março, pelo menos. Já está tudo planejado, a dose fatal já está preparada. Assim como a outra, acho que ninguém vai se surpreender quando ela se for. Eu a estudei vovô, como sempre faço. Ela é muito estranha. Tomara que ela seja suficiente para alegrá-la vovô. Eu não a vejo desde que quebrei o espelho… acho que ela está brava comigo. Estou tão sozinho que pensei até em me picar de novo. Mas eu não vou fazer mais isso vovô… nunca mais.”

 20 de fevereiro de 2013

 “Um policial veio aqui hoje vovô. Deve ter sido aquela maldita enfermeira. Ela deve ter me achado suspeito e deve ter ligado para a polícia. Maldita vaca. Se não fosse mais velha do que quando mamãe morreu, daria um jeito nela também. O policial queria saber se estava tudo bem, e quis saber o porquê de eu não ter impressões digitais. Dei a mesma desculpa de sempre, do acidente com produtos químicos… Acho que ele acreditou, pois mostrei meu crachá do laboratório. Eu fiquei com tanto medo que me piquei de novo vovô, mas desta vez é a última vez, eu juro.”

 28 de fevereiro de 2013

 “Mamãe apareceu para mim de novo, desta vez nos meus sonhos vovôs. Foram dois sonhos medonhos, ela estava toda de preto e chorava enlouquecidamente. Agora tenho medo de dormir. Faz três dias que apenas cochilo, com medo que dela vovô. As picadas têm me ajudado a ficar acordado. Sei que disse que não me picaria mais, mas até eu poder acalmá-la, é a única saída que encontrei. Mas eu estou no controle. Depois de dar cabo de meu alvo eu pararei imediatamente.”

 05 de março de 2013

 “O maldito policial estava à espreita hoje no beco. Não pude comprar mais para me picar. Ele deve suspeitar de alguma coisa vovô. Agora me lembro que o dia que ele veio aqui eu me descuidei por um minuto. Ele deve ter visto meus recortes de jornal e as páginas que imprimi. Mas isso não vai me deter.”

 15 de março de 2013

 “Andei ocupado preparando minha viagem. Já rastreei a agenda dela e sei exatamente onde ela estará exatamente no dia do aniversário. Ela aproveitará bem pouco os vinte e sete anos vovô. Bem menos do que mamãe teve chance. Mas eu não me sinto bem vovô. Tive uma vontade louca de me picar hoje e tive que recorrer a um cara que um colega de trabalho me indicou. Mas foi diferente das outras vezes, me sinto mais angustiado do que já estava. Cheguei a ver mamãe dentro do aparelho de TV. Ela chora compulsivamente e o choro dela entra no meu cérebro com uma faca afiada. Dia 28 tem que chegar logo. Não sei quanto tempo mais vou agüentar esta agonia.”

 22 de março de 2013

 “Conforme planejado, viajo hoje para Cleveland, onde ela estará fazendo mais um dos seus hediondos shows. Tomei todos os cuidados necessários, mas parece que sempre está faltando alguma coisa. Estou extremamente paranóico. Acho que é a droga, ou a falta dela. A ansiedade parece que coloca uma pedra enorme em cima do meu peito, e o fato de eu não ter uma boa noite de sono há semanas não está ajudando. Preciso me picar vovô… mas seria arriscado demais trazer no avião. Mas a dose para ela já foi enviada para a caixa postal que aluguei pela internet. A hora dessa aberração está chegando vovô.”

 28 de março de 2013

 “Deu tudo errado vovô. Eu usei o que o senhor me ensinou para achar e subornar o traficante local que forneceria para ela. Estava tudo preparado para a overdose dela, mas daí aquele maldito policial apareceu. Quase não consegui fugir, mas eles devem ter me seguido. O prédio está todo cercado de policiais. É o fim da linha vovô. Eu falhei com o senhor. Vou para junto da mamãe agora. Eu a vi no espelho agora a pouco. Ela estava de braços abertos e sorria para mim.”

 Extraído do “The Plain Dealer”

 30 de março de 2013

 “Um mistério impressionante abalou Cleveland neste final de semana. Um homem ainda não identificado foi encontrado morto em um quarto alugado no centro da cidade vítima de overdose de cocaína. Mas o mais impressionante é que os policiais encontraram com ele indícios que liga o homem e seu avô, um ex-agente da C.I.A. também não identificado ao assassinato de diversas estrelas da música pop desde os anos 1960. A polícia abrirá inquérito para apurar se as evidências realmente possuem fundamento, mas o que se sabe até o momento é que segundo o diário encontrado junto ao corpo, tanto avô como neto responsabilizavam estes artistas pela morte da mãe do rapaz, vítima de uma overdose de heroína no final dos anos 1970.”

 

Nota do autor: Você consegue identificar quais foram as estrelas da música vítimas dos assassinos deste conto? Deixe seus palpites nos comentários.

 Mortos ao vinte e sete anos: http://entretenimento.r7.com/musica/noticias/alem-de-amy-conheca-outros-nomes-da-musica-mortos-aos-27-anos-20110723.html?question=0

No Responsesto “Vinte e Sete”

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